segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Se STF acertou nos casos de Delcídio e Cunha, Aécio deveria estar preso

O Supremo Tribunal Federal não conseguiu explicar à opinião pública por que Aécio não foi preso como foi Delcídio do Amaral. Tampouco conseguiu explicar por que suas decisões contra Aécio terão que ser referendadas pelo Senado, rota de fuga que foi fechada para Eduardo Cunha.
Se as decisões sobre o candidato da direita na última eleição presidencial estiverem corretas, as decisões sobre Delcídio e Cunha estavam erradas. Se as decisões sobre Delcídio e Cunha estavam certas, Aécio deveria estar preso.
Não sou constitucionalista, não tenho a pretensão de saber qual é o caso. Mas é evidente que, se todas essa decisões foram constitucionais, o Brasil teve outra Constituição durante a guerra para derrubar Dilma Rousseff.
Não se trata, apenas, de um político corrupto escapando da Justiça. O caso de Aécio é representativo de uma tendência muito mais grave: desde que o PT caiu, a maré anti-corrupção virou.
Delcídio caiu porque era petista, Cunha caiu porque foi pego antes de a maré virar (e, mesmo assim, só depois de ter derrubado Dilma). Aécio é tucano, do grupo que subiu ao poder com Temer. Não é Aécio que tem mais capacidade de resistir à Lava Jato: é a coalizão conservadora que chegou ao poder após o impeachment.
Não é, portanto, possível descartar a hipótese de que a direita fisiológica regula a margem de ação das instituições brasileiras conforme sua conveniência.
Depois da decisão, o mundo caiu sobre a cabeça do STF, que foi acusado de não estar à altura de sua função constitucional. Bom, tem o Gilmar, mas, mesmo assim, não acho que essa seja a melhor análise.
Se a ministra Cármen Lúcia deu seu voto em favor de Aécio por temer uma guerra contra o Senado, sua leitura da situação estratégica estava correta: no momento, o Supremo Tribunal Federal é muito mais fraco que o conjunto dos senadores.
Durante a breve vigência da Constituição de 2015, o Supremo conseguiu derrubar corruptos importantes porque, na luta para derrubar Dilma Rousseff, nenhum dos analistas que hoje se preocupam com equilíbrio institucional dava a mínima para isso. Os empresários, que hoje só querem estabilidade, inflavam patos e os ânimos. Os partidos de direita que bradavam contra Delcídio hoje são o governo e têm como prioridade se livrar da cadeia, nem que para isso tenham que livrar também os petistas que derrubaram.
E a opinião pública? Como dizia Millôr Fernandes, opinião pública é a que se publica. Se o mestre, no céu dos colunistas, nos permitir uma atualização, opinião pública é a que se posta em redes sociais. Desde a guerra do impeachment, a opinião postada está sob controle da chamada Nova Direita, essa turma que não consegue mais emprego como roqueiro, ator pornô, filósofo ou militar, e descobriu que falar mal da esquerda rende um trocado.
E onde estava a Nova Direita durante o período que antecedeu o julgamento de Aécio? Estava fechando exposições de temática LGBT. A indignação que, em 2015, teria se voltado contra Aécio, agora caiu sobre o peladão do museu. O que era, é claro, o plano.
Desde que o Senado perdeu o medo da opinião pública, voltou a ser forte o suficiente para quebrar o Supremo. E enquanto a opinião pública brasileira continuar sendo a Marcha do Orgulho Otário, não adianta reclamar.


Celso Rocha de Barros, na Folha de São Paulo

A epidemia da inovação

O mundo corporativo é a distopia perfeita. De um lado, um modo inequívoco de produção de riqueza que elevou a condição material de vida dos seres humanos a um nível jamais imaginável, do outro lado, um sistema que esmaga o sujeito obrigando-o a competir cotidianamente, sem descansar nunca. Se a perfeição da vida material é uma utopia contínua no mundo contemporâneo, essa mesma perfeição produz níveis elevadíssimos de mal estar, provavelmente garantindo um futuro de mais riqueza regada a desespero a cada dia. Ninguém aguenta mais, mas ninguém pode parar.
Dentro desse quadro, chama atenção a obsessão pela ideia de "inovação". Ela aparece em todos os níveis da vida, do corporativo as pressões psicológicas sobre os mais velhos e mais jovens, num nível epidêmico.
A ideia, profundamente inscrita no "DNA" (como gosta de dizer o mundo corporativo quando "reflete sobre identidades") da modernidade, tem raízes filosóficas claras em obras como a do inglês Francis Bacon (1561-1626), entre outros. Seu projeto de "atar a natureza" a fim de conseguir as respostas necessárias para a melhoria das condições materiais de vida "na natureza" numa futura "Nova Atlântida", associado aos avanços do saneamento básico de Londres ao longo do século 19, são fundamentos básicos dos ganhos técnicos e de gestão de problemas na modernidade. Da natureza ao esgoto, o projeto é o mesmo.
Na vida pessoal, essa epidemia da inovação aparece no modo nefasto como as pessoas buscam "se reinventar" a todo momento. Ela obriga as pessoas a se vem como start ups contínuas num mercado infinito de demandas que vão da saúde física permanente, a beleza sustentável as custas de obsessões, a espiritualidade a serviço da commoditização da alma, enfim, a uma insatisfação existencial contínua como "motivação" para o imperativo da inovação.
É evidente que a proposta é patológica no nível humano, inclusive porque, apesar dos reais avanços tecnológicos na engenharia médica, marchamos para o envelhecimento e a morte, e isso tem impactos definitivos, mesmo que a indústria da inovação, regada a moda da Singularity University, a bola da vez, venda a ideia de que seremos imortais.
A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações "normais" da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas.
Um fato evidente nesse processo é o que muitos chamariam de "pressão do capital". Essa pressão nos obriga a pensar em nós mesmos como uma commodity buscando "investimento" no mercado de um mundo em "movimento", em direção a multiplicação do próprio capital que se expande a medida em que habita a inovação como condição sine qua non de adaptação a ele.
No mundo corporativo, que gasta dinheiro com palestras circenses, a fim de fazer seus "colaboradores riem", assim como uma sessão de meditação em meio ao massacre cotidiano, a epidemia da inovação é um mercado em si mesma.
Neste mundo, o futuro é uma commodity em si mesmo, vendido pelas consultorias de futuro. Citando casos conhecidos como a implantação de fake memories (diante destas, fake news é conversa de crianças), esse mercado da inovação vende a ideia de que num mundo próximo, a indústria de implantação no cérebro de memórias falsas, mas "felizes", eliminará a depressão e toda uma série de quadros clínicos indesejáveis.
Para além do absurdo da ideia, de um ponto de vista meramente médico, a própria noção de uma humanidade vivendo continuamente num parque temático "cognitivo" assusta não pelo suposto avanço médico em si, mas pelo modo como as consultorias do futuro vendem a ideia como o máximo da felicidade e da saúde. É a condição definitiva de idiotas cognitivos, sonâmbulos que caminham pela vida como um pós-humano em processo de extinção. Os neandertais, do alto de sua sabedoria de espécie já extinta, chorariam de pena de nós.


Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo

sábado, 7 de outubro de 2017

Quem sofre de depressão nem sempre parece triste

Trinta e seis horas antes de cometer suicídio, Chester Bennington, do Linkin Park, se divertia com a família num vídeo divulgado por sua mulher. "A depressão não tem rosto ou mau humor", escreveu Talinda, no Twitter.
Não sei como é para outras pessoas que sofrem com a doença, mas ouvi muitas vezes que eu parecia ótima. Eu queria estar bem, me divertir, voltar a experimentar aquilo que chamamos de felicidade. Desejava reencontrar a pessoa que sempre fui até sofrer uma crise de pânico e mergulhar numa tristeza profunda. Era a vontade de superar o problema que fazia com que, na maioria das vezes, eu não parecesse triste. Mas eu sabia que estava.
Durante mais ou menos um ano a hora mais feliz do meu dia era quando eu deitava na cama e fechava os olhos, com a esperança de que aquela noite de sono não terminasse nunca. Não era vontade de morrer, mas eu imaginava que se dormisse muito talvez acordasse mais disposta a ser feliz de novo.
Nunca era o suficiente. Nem o sono, nem os remédios, nem a paciência do meu psicanalista ou o infinito amor que recebi do meu marido e dos meus pais naquele período.
Eu queria estar bem. Me esforçava a reagir e parecer recuperada. Não podia decepcionar quem estava em minha volta. Então, eu tentava alcançar dentro de mim a pessoa que havia se perdido, mas durante a maior parte do tempo não tive forças para mergulhar tão fundo para resgatar aquela parte que havia naufragado.
Lembro que alternava entusiasmo exagerado em qualquer coisa que fizesse com dias e dias em que não queria sair de casa para nada. E era durante os episódios em que bancava a esfuziante que eu mais me enganava. E os outros acreditavam. E eu confiava no que eles viam.
Gostava de ouvir que estava bem, talvez eles conseguissem ver nitidamente o que eu não conseguia sentir. Em alguns momentos pensei que pudesse estar fingindo. Não estava. Estava tentando me arrancar daquele buraco. Mas entendi que a felicidade que eu transmitia era só a tarja preta que anestesiava a tristeza.
Funcionava. Cheguei a interromper a medicação, tudo com acompanhamento médico, porque me sentia melhor. Achava que tinha uma parte naquele processo que dependia apenas de vontade. Não adianta só querer. Levei um tombo. Mas foi dessa vez que entendi que dá para conviver pacificamente com a doença, embora os sintomas estejam apenas adormecidos.
Quase tudo que vivi naquele período parece meio nublado agora. Mesmo as lembranças dos bons momentos nem sempre têm a nitidez que a felicidade carimba em nossa memória. O cérebro não conseguia assimilar.
Não sei o que a depressão causa nos outros. Em mim, era como se a doença sufocasse no peito a pessoa alegre, divertida e bem-humorada que sempre fui. Era como se, por mais que eu tentasse, não conseguisse sentir prazer em pequenas coisas ou euforia nos grandes acontecimentos. Me olhava no espelho e não me enxergava. Passei um ano e meio da vida chapada de tristeza.
Deixei de fazer muitas coisas que gostava. O único prazer que eu tinha era afundar no sofá e beber. Beber até anestesiar os sentimentos e dormir noites intermináveis de sono. Tenho sorte. Muita gente não tem. Tornam-se alcoólatras, viciados em drogas, tiram a própria vida, tudo para fugir da dor de sentir-se triste.
Pessoas passam a vida lutando diariamente contra a depressão, algumas conseguem colocar a cabeça para fora da lama e respirar. Não sei o que funcionou no meu caso. Mas quando isso aconteceu, percebi que a doença tinha causado transformações em mim, inclusive fisicamente. Foi como se eu estivesse ficando sóbria aos poucos e me dando conta do estrago que ela tinha feito. E a ressaca é grande. Mas ela passa.
Imagine que você consegue recuperar o seu HD inteiro e ele te ajuda a lembrar quem você é, te mostra os caminhos que costumava fazer para sentir-se feliz. Dançar, correr, comer ovos mexidos no café da manhã, fazer piadas bobas, soltar o verbo. Você consegue se lembrar de como era antes da doença, que nem sempre teve que lidar com o desequilíbrio causado por suas emoções. Foi o que aconteceu comigo. E eu me agarrei a isso. E todos os dias faço um baita esforço para não soltar essa corda.
Hoje, sinto-me sóbria, e não porque não tomo mais remédios, mas porque voltei a experimentar sentimentos na intensidade que eles têm de fato. Fico feliz, alegre, decepcionada, animada e triste também. Faz parte da vida experimentar disso tudo no dia a dia. Já a depressão é um mergulho profundo na tristeza, mas nem sempre ela parece, aos olhos de quem está de fora, tão triste e devastadora quanto pode ser.


Texto de Mariliz Pereira Jorge, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cada país tem a desigualdade que escolhe?

A desigualdade voltou a ganhar destaque recentemente no Brasil, a partir de novos dados que indicam uma estabilidade da concentração de renda dos mais ricos, desde 2006.
Vários especialistas já se manifestaram sobre o assunto, apontando que esse resultado decorre da ampliação dos estudos para incluir dados tributários, que melhor capturam a renda do capital no topo da pirâmide.
De fato, a queda da desigualdade registrada pelo IBGE é mais focada na renda do trabalho, em que se verifica uma melhora da distribuição, até 2011, por qualquer medida utilizada.
Quando se incluem dados tributários na análise, o resultado ainda é um aumento da parcela de renda dos mais pobres, mas com estabilidade da parcela dos mais ricos.
Em outras palavras, a classe média perdeu participação no total de renda e isso ajuda a entender parte do conflito político recente.
Em um texto de 2016, Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, apontou que a desigualdade é uma escolha política, não um resultado de forças externas à sociedade.
Palma analisou a distribuição pessoal de renda em 129 países, dividindo cada sociedade em três grupos: mais pobres (40% na base da pirâmide), classe média (os 50% seguintes) e os ricos (os 10% no topo).
Segundo Palma, há uma regularidade na maioria dos casos: a classe média detém aproximadamente 52% da renda pessoal, independentemente do grau de desigualdade do país em questão.
Onde a desigualdade é alta, os ricos têm uma parcela elevada do total da renda, enquanto os pobres têm uma parcela reduzida. Onde a desigualdade é baixa, os ricos têm uma parcela menor, e os pobres, uma parcela maior do bolo. Nos dois casos, a classe média tem cerca de 52% da renda pessoal.
Minha interpretação dos resultados de Palma é que, onde a desigualdade é alta, a classe média aceita que os ricos sejam muito ricos desde que os pobres sejam muito pobres. Já onde a desigualdade é baixa, a classe média aceita que os pobres sejam menos pobres, desde que os ricos não sejam tão ricos.
A "tolerância à desigualdade" de cada país reflete, portanto, sua preferência de renda relativa. Onde a desigualdade é alta, caso do Brasil, a classe média tolera a riqueza excessiva desde que sua renda também seja excessiva em relação aos mais pobres.
Como apontou o sociólogo Jessé de Souza, essa escolha (um resquício do período de escravidão) pode explicar mais de nossa história do que a hipótese do patrimonialismo, tão em voga ultimamente.
Esse é um tema a ser aprofundado, sobretudo porque a recente perda relativa da classe média contribuiu para o crescimento de uma oposição virulenta a governos de esquerda e políticas de inclusão social.
Essa oposição geralmente se agrupa sob a bandeira politicamente correta de combate à corrupção, mas seu crescimento também tende a fazer os pobres voltarem a ser mais pobres via apoio a uma agenda regressiva de política econômica.
A alternativa progressiva seria fazer com que os ricos contribuam mais para a redução da desigualdade. Essa foi uma falha dos governos do PT. Demoramos muito para enfrentar o problema. Corrigir esse erro é o caminho a seguir, além de ser perfeitamente compatível com o combate à corrupção.
Mas temo que isso só acontecerá quando a desigualdade subir para um nível que ameace a sobrevivência da classe média.
NELSON BARBOSA, doutor pela New School for Social Research, é professor da Escola de Economia de São Paulo (FGV) e da UnB e pesquisador do Ibre. Foi ministro da Fazenda e do Planejamento (governo Dilma). Escreve às sextas-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.


Texto de Nelson Barbosa, na Folha de São Paulo

Texto de Santo Agostinho criou a culpa cristã frente ao sexo, afirma autor

Li um extraordinário ensaio de Stephen Greenblatt, na "New Yorker" de 19 de junho: "How St. Augustine Invented Sex", como santo Agostinho inventou o sexo.
Greenblatt é um autor de quem tento não perder nada, desde que li "The Swerve", de 2012 ("A Virada - O Nascimento do Mundo Moderno", Companhia das Letras —esgotado, como pode?).
"The Swerve", para mim, está na lista dos 200 livros que é necessário ter lido para não morrer idiota.
Enfim, no ensaio da "New Yorker", Greenblatt aponta nas "Confissões" de santo Agostinho (fim do século 4) a origem das dificuldades da cultura cristã com os prazeres da carne.
O artigo está ligado ao novo livro de Greenblatt: "The Rise and Fall of Adam and Eve" (Norton, 2017), o surgimento e a queda de Adão e Eva, em que trata da aparição e eventual queda, na nossa cultura, do casal com o qual a Bíblia começa —sua história, suas imagens e sua inquietante exemplaridade.
Discute-se até hoje: há quem diga que eles são exemplo da miserável desobediência humana, e há quem diga que eles são os antepassados do Prometeu de Goethe, criaturas rebeldes a seu criador e orgulhosas de sua humanidade.
É o dilema de Adão e Eva: servidão e vergonha? Ou heroísmo da liberdade?
Tanto faz que a gente acredite ou não que eles foram realmente o primeiro casal criado. O que importa, para Greenblatt, é que sua fábula foi, durante séculos, uma maneira maravilhosa de agitar questões essenciais.
No sucesso da história de Adão e Eva, a função de Agostinho é crucial.
Inicialmente, Agostinho achava que o Gênesis era uma história para boi dormir.
Só depois de sua conversão, ele descobriu que Adão e Eva expulsos do Éden lhe eram muito úteis 1) para fundar a ideia de um pecado original (com o qual todos nasceríamos, por causa do pecado do casal inaugural) e 2) para que o tal pecado original fosse identificado com o tesão carnal.
Ou seja, pela desobediência de Adão e Eva, todos nascemos com a tara do desejo sexual.
O batismo nos livra do pecado original. E o que faremos para nos livrar do desejo sexual?
Ainda estou lendo o novo livro de Greenblatt. Enquanto isso, o artigo da "New Yorker" me mandou de volta para as "Confissões".
Minha primeira leitura do texto se dera no primeiro ano de faculdade. E minha lembrança era parecida com as quartas capas das inúmeras edições de bolso das "Confissões": um texto moderno, uma maneira de o autor interrogar suas próprias entranhas mais íntima e cativante que a de Montaigne nos "Ensaios".
Pois bem, pasmei. Um pouco porque o tempo passou e um pouco pelo prisma de Greenblatt, encontrei outro livro, inquietante e mórbido. Agostinho escreve para justificar a repressão, que ele se impõe, de seu próprio prazer carnal e de um passado que ele considera devasso e do qual ele não nos diz quase nada (homossexualidade? Promiscuidade? Vai saber).
Ele se consagra à castidade, seguindo o desejo de sua mãe, com quem, aliás, ele conhece uma espécie de êxtase orgásmica simultânea. E se defende contra seu próprio desejo transformando-o em pecado original de todos os humanos, do qual é necessário que todos se redimam.
Claro, o sexo é necessário para a reprodução, mas, para o cristão, os órgãos sexuais deveriam responder ao intelecto como qualquer outro órgão (sem tesão involuntário, então) e funcionar sem paixão e sem gozo especial, como quando alguém peida à vontade (exemplo dele, sorry).
Pela ficção seria difícil construir um relato tão exemplar do que é uma neurose.
Agora, que eu saiba, não há outros casos de um relato mórbido grave que tenha tido um sucesso comparável. Agostinho conseguiu mesmo transformar o asco doentio por seu próprio tesão em condenação do desejo sexual numa cultura inteira, por séculos.
As encruzilhadas da vida são curiosas.
Agostinho inventou um deus que pudesse ajudá-lo a reprimir seu desejo carnal.
Eu, desde a adolescência, deixei de acreditar no deus de Agostinho justamente porque me parecia absurdo que ele se preocupasse em reprimir o desejo carnal de quem quer que seja e especialmente o meu. Ou seja, ele chamou deus para que o auxiliasse na luta contra seu próprio prazer. Eu achei que realmente não precisava de um deus que fosse oposto a meus prazeres.
Alguém dirá que por isso irei ao Inferno. Veremos. Por enquanto, o fato é que Agostinho atormentou a vida de centenas de milhões. Eu, não.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ecos de Setembro

“O peito avoluma e arqueia como cogote de potro. E as ventas se abrem gulosas por cheiro de madrugada. Potrilhos em disparada num Setembro de alvoroto.” É assim mesmo, mestre Aureliano de Figueiredo Pinto, bem assim como definiste nos versos do belíssimo e enigmático poema “Chimarrão da Madrugada”. Eu lembro que quando ainda cursava o Mestrado em Literatura Brasileira, na Ufrgs, decidi estudar tua poesia porque nela eu sentia o ardor, o cheiro e as metáforas que eu não enxergava em nunhum outro poeta. Por isso te elegi, querido doutor Aureliano, tu que deixaste de fazer tanta coisa, que recusaste tantos convites, mas preferiste cuidar de doentes em Santiago, junto aos pobres. E, ao mesmo tempo, escreve tão lindos versos, pois a poesia estava encravada em tua alma campeira. Por isso sempre te compreendi, porque de alguma forma somos parecidos, pelo menos no gosto pelas coisas do pago, pelo menos no gosto pela poesia, por tudo aquilo que fica entre o céu e a terra, aquilo que existe.
Quando chega setembro a gente aqui do Sul fica de outro jeito. As gurias suspiram e mexem em cadernos antigos a procura de antigas pétalas. Os irmãos ensebam botas, rédeas e lavam pelos de matungos enquanto as velhas brilham olhos de vidro nas janelas. Há um perfume diferente em setembro que contamina o ar, o cheiro da costela na brasa empesta os parques, homens a cavalo passam nos desvãos dos arrabaldes. É setembro. É este, mas a gente sabe que ele vem trazendo muitos outros que ficaram para trás, ele e seus ecos. Ouvem-se gritos, relinchos da eguada adelgaçada, um mês em que os peões churrasqueiam junto com os patrões, contam causos, riem e viram irmãos de novo. Será? Os historiadores só veem as causas e os resultados, não veem os entremeios. Perdemos a guerra? Sim, mas ganhamos uma identidade que talvez nunca tivéssemos sem aquela guerra de dez anos. Nossos ancestrais lutaram em muitas outras, mas esta foi a crucial para o nosso povo.
O decênio de 35 ainda ecoa em nós. Foram os peões, os negros, os mercenários, os fazendeiros, os nobres, todos os que caíram atravessados pelas lanças que ainda gritam nesses acampamentos. É fogo, é fumaça, é o som das gaitas e as fanfarronices, os versos, os desafios de trova, as declamações, tudo entreverado. Mais recentemente, um pouco de interesse comercial, palavras distorcidas sobre cultura, folclore, tradicionalismo, nativismo e regionalismo. Mas tudo isso faz parte do contexto, dos interesses que mudam sempre.
É setembro outra vez. De novo, muito alvoroço pelas ruas de todos os lugares, pequenos, médios ou grandes. Cavaleiros invadem as cidades, bem montados, aperos prateados, pilchas novas, revivendo um passado assim, nem tão glorioso. É preciso antes de tudo, compreender. Análises poderão mais tarde se mostrar precipitadas. Somos assim, esse é nosso destino e assim será, gostemos ou não. A realidade, meus amigos, não existe, existe apenas uma representação. Setembro vem, todos os anos, para que possamos representar tudo aquilo que fomos ou pensamos que fomos. Pouco importa.
O Rio Grande renasce nos setembros, nos fogões campeiros, onde retumbam ecos da nossa história. Ritual sagrado repassado de geração a geração por esse teimoso povo aqui do Sul.

Texto de Paulo Mendes no Blog Campereadas, no Correio do Povo

Brasileiros, mais um esforço para sermos liberais

Domingo, 10 de setembro, em Porto Alegre, o Santander Cultural encerrou a exposição "Queermuseu". O banco se apavorou diante das ameaças de boicote por clientes indignados com algumas das obras expostas –as quais ofenderiam a moral e instigariam pensamentos e atos impuros.
Uma parte, ao menos, dos protestos veio de pessoas que se declaram "liberais". Mamma mia. Liberal é quem defende, antes de mais nada, a liberdade do indivíduo (limitada apenas pelo Código Penal). Um liberal que não gostasse das obras expostas visitaria outra exposição. Ponto. Pretender boicotar o banco se a exposição não for fechada, essa é a conduta de grupos confessionais ou totalitários (fascistas ou comunistas).
Enquanto isso, os verdadeiros liberais, de esquerda ou de centro, tanto faz, escrevem colunas nos jornais, como eu agora, mas não agem. O que seria agir? Simples. Por sorte, sou cliente Itaú. Se eu fosse cliente Santander, acho que, nesta altura, fecharia minhas contas. Não aceitaria ser cliente de um banco que não corta nem sequer os pelos da orelha em nome da arte, mas chama seu serviço VIP de Van Gogh.
No dia 14, em Campo Grande, deputados registraram boletim de ocorrência alegando que um quadro exposto no Museu de Arte Contemporânea local faria apologia da pedofilia (de fato, a obra é uma denúncia).
Fora que a Constituição do Brasil é assim ludibriada, constato que, depois de milhares de abusos sexuais de crianças por parte de padres católicos (acobertados pela Igreja durante anos), ninguém denunciou inúmeras imagens que a Igreja propõe a seus fiéis e que alimentam a paixão pedofílica de seus ministros. Conheci padres atormentados, tentados e perseguidos pelas vinhetas do santo abraçando "com amor" as criancinhas que tanto gostavam dele. Se eu fosse procurador, é aí que procuraria a apologia do crime de pedofilia.
Mas o que me importa hoje é que o moralismo mais grosseiro exerce sua força política em chantagens eleitorais (ou comerciais, como com o Santander). Enquanto isso, os liberais se indignam e não agem –provavelmente pela antipatia que eles sentem por toda forma de ação coletiva. Mas como resistir a um obscurantismo no qual não gostaríamos de viver?
Um candidato que se diz liberal procura apoio nos fundamentalistas religiosos? Fora da nossa lista.
Um deputado promove uma lei para "curar" os gays ou, em geral, as pessoas que gozam de uma forma diferente da dele? Vamos pensar em como inserir, no próximo manual diagnóstico estatístico, o fundamentalismo religioso e moral como patologia?
Três anos atrás, em Veneza, entrei na igreja de San Zanipolo (João e Paulo). O guarda exigiu que a namorada de meu filho, que estava de shorts, escondesse suas pernas com uma manta.
"Quem instaurou essa regra?". Ele respondeu: "O papa". Perguntei se o papa tinha telefonado pessoalmente para o pároco. "Você não acha que o papa tem mais o que fazer?". Ele, consciente do ridículo, admitiu que não tinha sido o papa pessoalmente.
Perguntei se eu poderia entrar sem camisa. "Não!". Apontei para um crucifixo: "Ele estava nu". Ele respondeu que "Ele pode"... porque é Jesus". Concordei e continuei: "E os outros? Os mártires que aparecem nus nos quadros que decoram as igrejas do mundo inteiro?". Ele: "Também podem, porque foram supliciados". Minha vez: "Alguém que tivesse a cicatriz de uma cirurgia torácica ou cardíaca ou então as marcas do açoite por ter sido batido quando criança por pais sádicos, ele poderia? Você consideraria que ele foi supliciado?". "Não", ele respondeu, "os mártires morreram". "Então", resumi, "os mortos podem comparecer nus na igreja, os vivos, não. É isso?".
O homem ficou calado e irritado. Eu: "Sabe, eu sou terapeuta de adolescentes. Se seu problema for evitar que as pessoas se excitem sexualmente, você tem um problema: conheci dezenas de meninas que se masturbaram durante anos olhando para uma representação do momento em que arrancam os seios de santa Águeda mártir. E conheci dezenas de meninos que passaram anos se masturbando olhando para são Sebastião amarrado e transfixado de flechas. Os mártires são uma tremenda inspiração erótica...".
Os incendiários, às vezes, se fazem de bombeiros.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Você está insatisfeita com o corpo?

No Brasil, o corpo jovem e magro é extremamente valorizado. Não é à toa que as brasileiras investem tanto tempo e dinheiro na busca incessante de construir a aparência ideal. Elas consideram o corpo um verdadeiro capital.
Quando pergunto o que as mulheres mais invejam nos homens, elas respondem, categoricamente, liberdade, especialmente liberdade com o próprio corpo.
Quando pergunto o que mais invejam nas mulheres, elas dizem beleza, corpo, magreza, juventude e inúmeros aspectos relacionados à aparência.
O que mais me preocupa neste culto ao corpo é o enorme sofrimento que ele provoca nas mulheres, inclusive nas que são consideradas belas, jovens, magras e atraentes.
Inúmeras pesquisas revelam que a brasileira é a campeã na busca do "corpo perfeito": somos as primeiras ou segundas (após os EUA) em número de cirurgias estéticas, as que mais desejam fazer alguma plástica, as que mais deixam de ir a festas ou até mesmo ao trabalho por se sentirem gordas e feias, as que mais pintam o cabelo, as que mais consomem remédios para emagrecer, para dormir e antidepressivos etc.
Como disse uma professora de 45 anos, a valorização da juventude só nos faz sentir, cada vez mais precocemente, velhas:
"Quando fiz 40 anos tive a maior crise da minha vida. Descobri que sou uma mulher invisível, transparente, sem qualquer tipo de beleza e sensualidade. Não tenho tempo para cuidar de mim, com tantas obrigações com a casa, filhos adolescentes, marido, trabalho e ainda me sinto culpada por não conseguir malhar e emagrecer. Estou exausta, deprimida, irritada e não durmo direito. É uma luta diária com o meu corpo que só me traz frustração e a sensação de que sou um fracasso como mulher".
A professora revela que algumas amigas são viciadas em plásticas e fazem qualquer loucura para emagrecer: fumam, comem papinha de bebê, tomam laxantes etc. Disse que existe uma espécie de "gordofobia" e "velhofobia" ao seu redor.
Ela mostra a mesma angústia de inúmeras brasileiras: "Como posso me sentir tão velha e acabada se só tenho 45 anos? Por que tanto sacrifício para conquistar um corpo que eu sei que é impossível? Como posso lutar tanto por liberdade e ser prisioneira da insatisfação com o meu próprio corpo?".


Texto de Mirian Goldenberg na Folha de São Paulo

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Dr. Machismo

O primeiro obstetra indicado parecia um ursinho carinhoso, de tão doce e baixinho. Eu já estava me deleitando em segurança e afetividade filial quando ele mandou, sem dó, no meio do meu ultrassom transvaginal: "Se for menina o cérebro demora mais para se formar, se é que um dia se forma". E riu, buscando na face de meu marido chocado alguma camaradagem, um aval "testosterônico" para a piadota estúpida. Nunca mais voltei ali.
Tentei a segunda indicação e já na sala de espera vi que o relacionamento não iria pra frente. O lugar parecia um lounge do shopping Cidade Jardim. Mulheres muito magras, maquiadas e montadas lançavam à atmosfera, sem nenhum pudor, angústias existenciais tão ocas quanto as de uma Barbie sem útero: "Tadinha da minha Pietra, convive na escola com amiguinhos que têm jatinho particular e sofre por não ter um".
O médico era tratado como uma estrela intocável (de fato, me cobrou uma fortuna e nem sequer encostou em mim, suas assistentes é que fazem tudo). O corre-corre de enfermeiras e secretárias mais parecia os bastidores de um famoso show que entraria no ar assim que eu, ou qualquer gestante, topasse ser a escadinha insignificante para o grande protagonista da manhã. Depois de solar ininterruptamente, por uma hora, sobre como ele era incrível, me sobraram cinco minutos para que eu perguntasse se era normal andar meio esquecida. Ao que ele respondeu, terno, elegante: "Querida, mulher já é burra, imagina com a progesterona causando edema cerebral!" Nunca mais voltei ali.
Finalmente marquei com uma mulher. Talvez eu a abraçasse e chorasse apenas por ela ter uma vagina. Finalmente estava a salvo! Não. Me lembrei que mulheres também podem ser muito machistas quando ela começou a falar que o mais importante, durante a minha gestação, era não esquecer de ser atraente para o meu marido. Eu precisava me manter bonita, agradável e com apetite sexual. Eu tinha que me forçar a sair de casa, fazer ginástica e, caso não estivesse a fim do sexo em si, não custava "fazer um agradinho". Era isso ou "liberar um 'freepass' pro maridão sair". Sim, eu ouvi essa frase. Eu tinha uma lista com 200 perguntas que nada tinham a ver com meu marido (tampouco com a alegria peniana dele), mas a consulta acabou virando dicas cretinas de revista funesta. Quem, com azia, prisão de ventre, enjoo, enxaqueca, sono e cansaço quer transar? Bom, segundo essa médica, era preciso "se forçar um pouquinho". Ela coroou seu discurso dizendo que amamentação não era pra durar mais do que três meses e que "bebês são muito chatos, legal é quando a criança já consegue discutir política". Nunca mais voltei.
Traumatizada pelos doutores tradicionais, quase caí no papo dos pequenos templos dos ditadores da fofura. Aquela gente que te olha como se você fosse um Hitler de pança só porque a situação "parir num riacho a 3.000 quilômetros de um bom hospital" não lhe parece a opção mais adequada. Não, eu não quero passar gengibre no mamilo, camomila na vulva e chia no ânus, eu quero tatuar "viva a descoberta da anestesia" na testa! Enfim liberta do espartilho ecológico "parindo como no século 15" travestido de cartilha bondosa da mãe natureza, ainda sigo em busca do que, em essência, deveria ser muito simples: um médico que não fale tanta merda.

Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A razão em Pascal tem por objeto o reconhecimento da desmesura

"Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir e Outros Escritos de Ciência, Política e Fé" é uma coletânea de textos de Blaise Pascal enfim traduzidos e editados em português em edição cuidadosa de Flávio Fontenelle Loque (Autêntica, 192 págs.).
Juntamente com os "Pensamentos e as Cartas Provinciais", ele fornece os textos principais de um dos mais impressionantes pensadores do século 17 em sua articulação cruzada entre matemática, política radical e teologia.
Filósofo ligado ao jansenismo e sua articulação entre rigor moral, crítica de si e insubmissão política, Pascal fornece, nesses escritos, os eixos principais de sua experiência intelectual. É evidente aqui sua maneira de levar o que o que chamaríamos atualmente de "problemas epistemológicos" a se desdobrarem em afirmações de claras consequências metafísicas.
Tomemos, por exemplo, o manuscrito que abre a coletânea, a saber, "Do Espírito Geométrico". A princípio, pode parecer estarmos diante de um clássico texto no espírito protoiluminista daqueles que afirmarão serem as matemáticas e a geometria o modelo racional de apreensão de um modo desencantado.
No entanto, o verdadeiro objeto de tais elaborações paulatinamente vai se descortinando. Pascal luta contra aqueles que querem, por meio da razão, assegurar a inexistência do infinito, como aqueles que asseguravam que o espaço podia ser dividido em duas partes indivisíveis, em vez de assumir o princípio de uma divisão ao infinito, de uma aceleração ao infinito, de uma diminuição ao infinito. Não há geômetra, dirá Pascal, que não creia ser o espaço divisível ao infinito. Crer nisso seria como crer em um "homem sem alma".
A analogia é mais sugestiva do que parece. Através do infinito, a razão expressa a existência do que o entendimento não alcança. Ela ultrapassa o que o entendimento não concebe. A geometria permite, assim, "admirar a potência da natureza nessa dupla infinidade [do infinitamente grande e do infinitamente pequeno] que nos circunda por todos os lados".
Tal existência pode ser reconhecida não pela sua apreensão sensível, mas devido à compreensão da falsidade de seu contrário ("há o que é espacialmente indivisível").
Ou seja, a razão em Pascal tem por objeto o reconhecimento da desmesura. O infinito matemático é uma astuta porta de entrada ao reconhecimento de realidades infinitas que nos atravessam e nos circundam por todos os lados.
"O silêncio desses espaços infinitos me apavora", dizia Pascal em seus "Pensamentos". Inicialmente, parece que estamos diante da afirmação de que a passagem do mundo fechado da física aristotélica, com seus lugares naturais e qualitativamente distintos, ao universo infinito próprio dos espaços ilimitados e homogêneos da física galilaica teria silenciado todo finalismo e toda teologia.
Daí porque "esses espaços infinitos" pareceriam silenciar um mundo que então cantava a glória e o necessitarismo finalista da criação de Deus.
De fato, Pascal não cansará de afirmar, na aurora da modernidade, que entrávamos na era de um "Deus escondido" que não se faz ver como o Sol ao meio-dia.
Mas ele era escondido e silencioso não porque entrávamos em um mundo desencantado, no qual a natureza aparecia como uma máquina cujas relações de causalidade lhe seriam completamente imanentes.
Deus se silenciaria a partir de então porque, em espaços infinitos –e esta é uma das consequências principais do pensamento pascalino–, é impossível eliminar a realidade ontológica do acaso. Espaços infinitos têm relações e implicações possíveis infinitas, o que é outra forma de dizer que neles o acaso não pode ser eliminado. O que silencia Deus não é a força explanatória da ciência, mas o reconhecimento da irredutibilidade do acaso.
Mas o acaso silencia tanto Deus quanto os reis. O que faz de alguém um rei, dirá Pascal, não é lei natural alguma, mas uma sucessão inumerável de acasos que o poder procura esconder como o mais profundo de seus segredos.
Pois o acaso destitui a naturalidade da autoridade e coloca os reis em uma condição de "perfeita igualdade com todos os homens". Para alguns, isto é ainda mais apavorante do que o silêncio desses espaços infinitos.


Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Como homens e mulheres superam a dor de uma separação?

Observei algumas diferenças de gênero marcantes nas minhas pesquisas. Muitas mulheres "ruminam" durante meses, às vezes anos, as possíveis causas da separação. Elas se sentem angustiadas, deprimidas, fracassadas e, principalmente, culpadas por não terem conseguido manter o relacionamento. "O que eu fiz de errado? O que eu poderia ter feito diferente? E se eu tivesse agido de outra forma?"
Já alguns homens parecem superar mais facilmente o fim de uma relação de duas maneiras: bebendo com os amigos e encontrando rapidamente um novo amor. Eles não se sentem responsáveis pela separação. A culpa é sempre dela: "Ela reclamava de tudo! Ela estava sempre insatisfeita! Ela cobrava e exigia demais! Era o tempo todo DR!".
Eles querem minimizar ou anestesiar a dor, enquanto elas maximizam o sofrimento em um luto interminável.
O processo feminino de superação é muito mais demorado, verbalizado e compartilhado, especialmente com as amigas.
Elas procuram refletir sobre os possíveis erros, para não errarem novamente. E também preferem cicatrizar as feridas antes de buscarem um novo amor. Algumas resolvem investir em novos projetos de vida para se sentirem mais fortes: estudar, trabalhar, viajar, cuidar do corpo e da saúde, reformar a casa etc.
Apesar de agirem de formas diferentes, eles e elas revelam que uma coisa é certa: um dia a dor acaba. Por mais clichê que possa parecer, o tempo é o melhor remédio. Saber que vai passar, mesmo que demore muito, ameniza bastante a dor de uma separação.
E, como me contaram, apesar de todo o sofrimento, a separação pode ter sido a melhor coisa que aconteceu em suas vidas. Muitos encontraram um novo amor, mais saudável, equilibrado e feliz, com mais risadas e menos brigas. Outros fizeram viagens incríveis ou investiram em um trabalho mais interessante, por se sentirem mais livres para assumir novos desafios. Alguns descobriram que é possível, sim, ser feliz sozinho. E que a pior solidão é a solidão a dois.
Para lidar com o sofrimento inevitável de uma separação, aprendi que a melhor saída é repetir o seguinte mantra: "Acabou! Posso sofrer, posso chorar, mas, mais cedo ou mais tarde, vai passar!".


Mirian Goldenberg, na Folha de São Paulo

O Silêncio

Há algo de instrutivo no ritual que o Congresso Nacional ofereceu ao país na última quarta-feira, quando um ocupante do cargo da Presidência, gravado em situação flagrante de prevaricação e corrupção passiva, formalmente denunciado pela Procuradoria Geral da União, foi poupado.
É difícil imaginar algum país no mundo que chegaria a um espetáculo tamanho de degradação comandado por uma casta de políticos dignos de filmes de gângsteres série B. Ao menos, depois dessa confissão de desprezo oligárquico pela opinião pública, quem sabe agora parem de falar que estamos em uma "democracia".
Enquanto o país assiste a universidades públicas suspenderem as aulas por se encontrarem em situação falimentar, serviços públicos entrarem em deterioração, agências de pesquisa decretarem estado de calamidade e 3,6 milhões de pessoas saírem da classe média baixa em direção à pobreza, o ocupante do trono da Presidência, único presidente da história brasileira a ser denunciado pela Justiça no cargo, gastava milhões de reais em suborno explícito de deputados, uso de cargos públicos para aliciamento de votos e liberação de emendas escusas a fim de garantir sua sobrevida.
Ou seja, bem-vindos a uma cleptocracia que agora não faz nem sequer questão de conservar as aparências. Há algo de terminal quando até mesmo as aparências já não são mais conservadas. Tudo isso com o beneplácito daqueles que dizem que o país precisa, afinal, de "estabilidade".
Com se vê, há algo de muito interessante no conceito de "estabilidade" que circula atualmente. Uma estabilidade da pauperização, da precarização do emprego, do desmonte dos serviços públicos e da redução final da república brasileira a uma farsa macabra.
Contra isso, há aqueles que falam que receberam uma "herança maldita" do governo anterior. Alguém deveria explicar essa repetição compulsiva que nos acomete. Vivemos em um país onde todo governo usa o expediente de culpar a herança maldita do anterior para mascarar sua própria impotência. O cômico é que eles sempre encontram alguém a continuar a vociferar a mesma estratégia surrada de sempre.
Mas o que pode realmente impressionar alguns é o silêncio com que este momento foi recebido por setores da sociedade brasileira ou, antes, os expedientes que vemos para justificar a passividade. Por que as ruas não queimam, perguntam?
Ao menos três fatores deveriam ser levados em conta aqui.
Primeiro, porque estamos falando de um governo que atira em manifestantes em toda impunidade, como vimos na última manifestação de greve na Esplanada dos Ministérios. Ele usa seu braço armado para cegar estudantes com bala de borracha, atemorizar a população nas ruas com sua polícia gestora da desordem, ameaçar com punições os que entram em greve e ridicularizar o fato de 35 milhões de pessoas pararem o país (como na última greve geral). Ou seja, boa parte das pessoas não sai às ruas porque elas têm medo da violência do Estado, já que elas tacitamente sabem que não têm mais garantias alguma de integridade.
Segundo, porque há um setor da sociedade brasileira que nunca teve problemas com corrupção, mesmo que tenham saído às ruas em 2015 falando o contrário. Eles sempre votaram em corruptos notórios e continuarão fazendo isto. O único problema deles era com o governo anterior. Derrubado o governo, todos eles voltaram para casa e continuarão lá para todo o sempre.
Por fim, não há ninguém nas ruas porque a esquerda brasileira entrou em colapso. Presa entre a tentativa de ressuscitar o que morreu e a incapacidade de encontrar outra forma de incorporação genérica de sua multiplicidade de demandas em um ator político unificado, ela encontra-se paralisada e sem capacidade de dizer claramente o que quer, qual seu horizonte.
Queremos simplesmente retornar ao passado recente, conservar o que está sendo desmontado, ou temos algo a mais a propor? Conseguiremos fazer a maioria da população brasileira sonhar e acreditar em sua própria força de transformação e luta ou empurraremos todos a um horizonte desinflacionado de mudanças, como se isso fosse a expressão de um realismo duro, porém pretensamente necessário?
Sem clareza acerca desses pontos, ninguém avançará um passo.


Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo