sábado, 18 de novembro de 2017

As coisas podem agir em nós sem estarem ligadas à vontade de alguém

"As pessoas e as coisas" (Rafael Copetti Editor, 150 páginas) é o segundo livro traduzido no Brasil do filósofo italiano Roberto Esposito. Responsável por um projeto que visa pensar os fundamentos metafísicos da política moderna e suas consequências contemporâneas, Esposito constituiu uma orientação singular capaz de expor os limites de conceitos normativos definidores de nossas formas de vida.
Poucos são os filósofos contemporâneos que exploraram de forma tão sistemática a maneira com que nossa forma de pensar continua a enraizar-se em uma metafísica implícita, que raramente diz seu nome e que, por isto, age de forma muda e forte. Nesse sentido, seus livros participam de um projeto comum paulatinamente desdobrado.
Um destes pressupostos metafísicos maiores é a distinção entre pessoas e coisas, ou seja, entre aquilo que é dotado de dignidade de agentes capazes de deliberação e aquilo que, desprovido de tal dignidade, serve ao uso e usufruto. Ele é o objeto central desse livro agora traduzido.
É rapidamente perceptível que a distinção entre coisas e pessoas aparece a nós como uma distinção de forte cunho moral (nunca tratar pessoas como coisas), mas também psicológico, jurídico, econômico e político.
Há uma espécie de "dispositivo da pessoa", isso no sentido de um conjunto de práticas e procedimentos que constituem um horizonte de ações possíveis, de modos possíveis de existência baseado no respeito à especificidade da pessoa.
É tendo em vista a desconstituição desse dispositivo e da reflexão sobre suas consequências que Esposito se envolve em uma verdadeira arqueologia dos conceitos de pessoa e coisa. Arqueologia que lhe permite lembrar como "coisa" aparece enquanto aquilo que está a serviço da pessoa, aquilo que pode ser submetida a uma relação de posse em relação à pessoa. Ou seja, ela pressupõe a generalização das relações de posse e de usufruto ligado à propriedade.
Só em uma sociedade de proprietários, sociedade nas quais o estatuto fundamental de membro confunde-se com o estatuto de proprietário, podem existir "coisas". Nas sociedades onde as "pessoas" são livres, o preço a pagar por tal liberdade é que as "coisas" sejam submetidas à servidão.
Assim, se são Tomás afirmava que a pessoa era o âmbito no qual a razão poderia exercer o domínio de seus próprios atos, como autor dos seus próprios atos, é porque, para nós, as coisas não agem mais, elas são acionadas por nós.
É claro que o ponto que complexifica tal dicotomia é o estatuto do corpo, nem completamente coisa, nem completamente pessoa. Pois há sempre algo de impessoal no corpo, algo que não é completamente próprio à pessoa, mas impróprio.
Por isso talvez seja tão difícil para nós, que naturalizamos a distinção entre pessoa e corpo em uma chave impulsionada pela teologia cristã, pensar o que é um corpo e o que implica, para nós, não exatamente ter um corpo, mas ser também um corpo.
Pensar tais questões, e essa é uma das grandes contribuições de Esposito, nos permite pensar se o verdadeiro conceito de liberdade social não seria a noção de uma sociedade de sujeitos livres, mas antes uma sociedade de sujeitos e de coisas livres. O que pode ser uma sociedade de coisas livres?
Longe de serem instrumentos ou posses, as coisas podem aparecer como o que nos causam e agem em nós sem que sua forma de agência e de causa esteja ligada à vontade de uma pessoa, à deliberação de uma consciência, um pouco como as obras de artes que nos afetam sem que tenhamos que ver, nelas, a expressão da deliberação de uma pessoa.
Elas não são apenas a sedimentação dos circuitos de histórias que a compuseram, mas também a força de seus corpos, de sua matéria, do trajeto de sua própria materialidade, de sua "vida própria".
Uma sociedade que não submete as coisas a um estatuto subalterno é uma sociedade que aprende a se afastar do estatuto da propriedade e da hierarquia como modelos fundamental de organização e sentido. Ela será capaz de pensar de forma mais adequada, entre outras coisas, seus corpos e a presença política de seus corpos.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Morto aos 81, Moniz Bandeira iluminou sonho de país grande

O Brasil que luta para não ser apequenado por sua própria gente sofreu uma baixa inestimável com a morte de Luiz Alberto Moniz Bandeira; o Brasil gigante, altivo, desenvolvido, justo e protagonista com que tanto sonhou fica mais distante sem sua contribuição acadêmica e sem seu engajamento vibrante.
Professor, pesquisador e escritor, Moniz Bandeira nunca se rendeu a modismos intelectuais, e suas obras são a combinação rara de texto de um excelente historiador com a percepção de um apurado analista de geopolítica.
Vencedor do Prêmio Jabuti, foi um dos poucos pesquisadores a compreender as relações profundas entre o Brasil e os EUA, a divulgar que elas vão muito além de questões conjunturais e históricas, que existe uma ferida estrutural e estratégica entre as duas nações e que um dia precisará ser resolvida.
O desafio do Brasil, dizia ele, será impor-se aos EUA como país realmente soberano e desfazer de forma definitiva a doutrina de que no continente americano não há espaço para uma segunda potência. Para ele, um Brasil justo e desenvolvido para os brasileiros, por suas dimensões e recursos, não escapa do destino de ser potência.
Sem chance para o meio-termo, para a timidez, trata-se de um Estado destinado a ser ator relevante ou a tornar-se um enorme fracasso.
Integracionista convicto, tinha a certeza de que o desenvolvimento da América do Sul só será possível por meio da formação de um bloco político e econômico coeso e que, para isso, uma profunda parceria entre Brasil e Argentina é requisito fundamental.
Profundo conhecedor da política externa americana e da atuação de seus serviços de inteligência, Moniz Bandeira teve, em seu último livro, "A Desordem Mundial", a sensibilidade de perceber que a grande potência aposta nesta década em uma nova ordem calcada na desordem, nas guerras e na desestabilização política e econômica internacional para manter sua hegemonia perante outros gigantes como China e Rússia.
Usou de vasta documentação e de descrição pormenorizada de eventos e conflitos recentes em diversas regiões para justificar sua tese.
Achava que os Estados Unidos continuarão sendo por algumas décadas a principal potência, mas que eles precisarão aprender a conviver com um mundo multipolar, se quiserem evitar uma catástrofe mundial.
Crítico feroz do golpe contra a presidente Dilma -assim considerava-, não teve medo de fazer com densidade as relações entre as conjunturas interna e externa que levaram o Brasil à crise.
Erros na política doméstica, conflito latente entre grupos distintos e com aliados diferentes no mundo e uma enorme miopia do país em perceber que seu crescente protagonismo internacional incomodou grandes atores foram, a seu ver, os principais componentes da derrocada.
Alertou para o fato de que o combate à corrupção se tornou tendência mundial, atingiu países tão distintos quanto Argentina, África do Sul e Coreia do Sul e, com mesmo modus operandi entre eles, um enorme protagonismo das polícias nacionais, do Judiciário e do que por aqui convencionou-se chamar de delações premiadas.
Sua apurada capacidade de análise sistêmica o fazia ver relações entre as manifestações na Ucrânia, a Primavera Árabe, a crise política sul-africana e as quedas das presidentes sul-coreana e brasileira. Relações que, para muitos, parecem pura teoria da conspiração, em grande parte por não estarem nas páginas dos jornais, mas que, em sua opinião, fariam parte de análises e dos livros de história daqui a algumas décadas.

TANQUES DE GUERRA

Escreveu por quase toda a vida e costumava dizer que os livros são como tanques de guerra, as principais armas dos intelectuais.
Sempre rechaçou de forma ferrenha o apego acrítico às teorias políticas internacionais. Para ele, teoria que aparentemente não cheirava, na verdade, fedia, pois a neutralidade não seria só uma utopia, mas, na maior parte dos casos, exercício de má-fé.
O estudo das teorias das relações internacionais, predominantemente anglo-saxãs, sem um forte componente reflexivo a partir de realidades locais e nacionais seria, em sua visão, um cavalo de Troia para países de periferia, cristalizando a hegemonia dos ricos e a irrelevância dos pobres.
Moniz Bandeira partiu, mas antes ajudou a iluminar a estrada dos que sonham com um Brasil grande.
E, sempre que tentarem escurecer esse caminho, sua obra estará pronta para servir como farol. Seus tanques estarão prontos para batalha.

Texto de Leonardo Valente, escritor e professor de Relações Internacionais na UFRJ, para a Folha de São Paulo

sábado, 11 de novembro de 2017

Ações de bloqueio tentam eliminar a existência política dos trabalhadores

Florestan Fernandes costumava dizer que o Brasil era o país da "contrarrevolução permanente". Era um modo de dizer que, em nosso país, o poder não é animado por uma forma de projeto modernizador, mesmo que uma modernização conservadora. Ele se organiza através de múltiplas ações de bloqueio das possibilidades de emergência de transformações estruturais populares.
Por exemplo, imaginar que estamos hoje no meio de um projeto de "ajuste econômico" tendo em vista a produção de riqueza socialmente partilhada é delírio que parece só acometer jornalistas econômicos.
O resto da população percebe claramente que se trata, na verdade, de uma política deliberada de submissão da classe trabalhadora a um padrão extremo de vulnerabilidade social que a impeça de realmente existir politicamente.
Mas isto não pode ser feito sem as múltiplas estratégias de silenciamento, que vão das mais discretas às mais violentas. E uma das mais violentas passa pela tentativa de definir, do ponto de vista simbólico, quem é o povo. Pois quem estaria fora do povo perderia a possibilidade de ser escutado, a legitimidade de exigir a realização de suas demandas.
Isto não poderia ser diferente e há uma dimensão constitutiva da política que passa por tal embate. Há uma certa dimensão da política que deve ser entendida como uma luta para definir onde está o povo.
Neste sentido, não é sem interesse lembrar que, no exato momento em que o povo brasileiro encontra-se submetido a um processo brutal de expropriação econômica, os campos de combate da opinião pública e da cultura assistem discussões sobre onde está o povo.
Fenômenos recentes na cultura, o encerramento de exposições artísticas e as tentativas de cancelamentos de simpósios são feitas em nome do povo, em nome da "maioria esmagadora do povo brasileiro".
Ou seja, a lógica é afirmar que eles são o "povo", com seus pretensos valores saudáveis, seus hábitos trabalhadores, enquanto nós, especialmente intelectuais e artistas, seríamos a verdadeira elite ociosa que vive de dinheiro público, de benesses de fundações privadas internacionais, propagando comportamentos viciosos e doentios.
Enquanto eles ficam calados diante do sistema neoliberal de blindagem das elites financeiras que drenam as riquezas do país e tomaram de assalto o poder político, procurando chantagear a soberania popular através da ameaça da "desconfiança dos mercados", eles querem fazer crer que artistas e intelectuais seriam os verdadeiros sanguessugas da riqueza nacional, em clássica reedição dos ataques nazistas contra o "bolchevismo cultural".
Como se vê, a estratégia gira em torno de quem é capaz de constituir o "povo" como ator político e, com isto, designar quem está fora do "povo" como enunciador.
Por isso, talvez seja o caso de inverter as acusações e lembrar que há sim momentos em que as estratégias populistas são necessárias, mesmo que provisoriamente.
Uma lembrança que pode nos levar a dizer a quem procura simplesmente nos calar: "Não, essas e esses que assim falam não são o Brasil".
Na verdade, essas e esses habitam outro país, um país inominável e infame que não se incomoda em ser defendido por militares com sanha golpista inconfessa e oligarcas que passam seus cargos públicos de pai para filho. Um país que sonha em acalmar medos apelando à violência de Estado, que delira com o comunismo saindo por todos os poros.
Esse país sem nome não se deixa afetar com as verdadeiras violências sexuais contra mulheres, travestis, homossexuais e crianças; é completamente indiferente à espoliação da classe trabalhadora através de aparatos legais criados para retirar toda capacidade de organização e luta de quem recebe salários miseráveis e humilhações cotidianas.
Um país que nunca se afetou por seus próprios genocídios indígenas e por seu racismo que, como se diz aqui, não existe, já que louvamos a miscigenação.
Esse país, no entanto, nunca foi o Brasil. Contra ele sempre existiu um outro que se chama Brasil e que sempre lutou para emergir.
Para quem não sabe onde está este país, que lembrem dos gritos de revolta de Zumbi, da tenacidade de Pagu, do espírito inquebrantável de Luís Carlos Prestes, dos cabanos, dos que lutaram de todas as formas contra a ditadura militar, dos camponeses mortos em suas lutas por terra, dos estudantes que ocupam escolas contra seu fechamento.
Este país é enorme, mas muitos querem nos fazer acreditar que ele não existe e que é fraco.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

sábado, 4 de novembro de 2017

Livro de Orlando Figes sobre a cultura russa abusa de caricaturas


Com suas 700 páginas, "Uma História Cultural da Rússia" é um livro ambicioso, e útil, na profusa quantidade de informações que apresenta, mas desproporcionalmente limitado na dose de reflexão e análise que contém.
Embora afirme, na apresentação, que "a Rússia convida o historiador cultural a sondar debaixo da superfície da aparência artística" (o que, de resto, é o mínimo que se pode esperar de um historiador), tive a impressão de que o autor não atendeu muito bem o convite.
Financiado por uma poderosa fundação privada inglesa, subvencionada por uma das maiores multinacionais do ramo da alimentação e refrigerantes, o autor passou três anos se dedicando apenas a esse livro, fazendo viagens e contratando uma equipe de pesquisadores.
Por isso me atrevo a cogitar que, em alguma medida, há outro tipo de convites envolvidos aqui, "por baixo da superfície da aparência artística". Afinal, por que tantos livros sobre a Rússia (e quase sempre escritos por americanos e ingleses)?
Por que tantos financiamentos para a produção de livros sobre a Rússia, que acabam, quase automaticamente, traduzidos e publicados no mundo todo? Por que esses livros seguem uma linha editorial e até um vocabulário tão uniformes? Não seria o caso de perguntar, também, onde estão os livros sobre a história dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, do Império Colonial Britânico? Seria o assunto irrelevante? Ou a história é uma coisa horrível que só acontece com os outros?
Não creio que a explicação esteja no centenário da Revolução Russa de 1917, pois o livro de Orlando Figes, por exemplo, foi publicado originalmente em 2002.
Seja como for, ainda na apresentação que abre o volume, o autor aventura uma interpretação mais geral do seu objeto de estudo: "De forma extraordinária, talvez exclusiva, a energia artística do país foi quase inteiramente dedicada à busca da compreensão da ideia de sua nacionalidade. Em lugar nenhum o artista foi mais sobrecarregado com a tarefa da liderança moral e da profecia nacional."
Portanto o autor reconhece aquilo que, de fato, salta aos olhos: o grau incomum do enraizamento da arte russa na vida histórica e social do país, bem como a constância impressionante dessa experiência ao longo de séculos. Isso poderia ser encarado como o maior diferencial e a fonte principal do alcance da arte russa.
Figes, porém, usa palavras que mais encobrem do que esclarecem essa constatação. Dizer que o artista é "sobrecarregado" denota algo negativo nessa experiência, postula uma espécie de peso morto que o artista tem de carregar e que reduz a dimensão de sua obra —quando se trata justamente do contrário.
Em seguida, atribui ao artista "a tarefa da liderança moral e da profecia nacional". Por que não chamar essa liderança de política, social, ou pelo menos intelectual? Seria, no mínimo, mais concreto e compreensível do que "moral".
Conceito que, aliás, é importante observar, pulula pelas páginas do livro. Sempre que o texto precisa se resguardar do risco de alguma palavra mais concreta, o autor recorre ao adjetivo "moral". Por exemplo: diante da violência das revoltas dos camponeses, no final do século 19, o autor diz que "as classes instruídas foram lançadas num pânico moral".
O emprego de palavras de algum teor religioso é sistemático no livro de Figes. A expressão "profecia nacional", no trecho citado, ilustra o procedimento retórico recorrente. O intuito, no caso, é descaracterizar o empenho intelectual e crítico dos artistas em se envolverem a fundo nos processos históricos da Rússia e na vida concreta de seu povo, para deixar, em seu lugar, na mente do leitor, algum tipo de conteúdo irracional, a-histórico e de pouco valor objetivo.
Por exemplo, quando o autor trata das ideias de um líder aristocrata da revolta dos dezembristas, de 1825, usa expressões como "cultuar o altar do campesinato", "renunciar ao mundo pecaminoso onde tinham nascido os filhos da nobreza" e (claro, não podia faltar) "a busca moral" do nobre, que conspirou contra Nicolau 1º.
Ao descrever o movimento de massas espontâneo que, em 1874, levou milhares de estudantes a viver entre os camponeses, no evento conhecido como "ir ao povo", Figes diz que "era uma forma de peregrinação", "do tipo de pessoa que vai em busca da verdade num mosteiro", "esses missionários se sentiam culpados diante dos servos", "tentavam se libertar do mundo pecaminoso dos pais", "partiam com espírito de arrependimento", "esperavam redimir o próprio pecado: terem nascido privilegiados".

LÉXICO E CARICATURA

Essa técnica retórica, essa tradução forçada de um movimento político e cultural em termos de experiência religiosa, tem por objetivo subtrair o caráter de revolta efetiva e de anseio de justiça concreta, patentes no conjunto daquele acontecimento histórico.
As palavras "inveja" e "ressentimento" são constantemente empregadas por Figes quando se trata de uma revolta de pobres contra ricos. E, em troca, o autor adota palavras como "arrependimento" e "redenção", no caso de ricos (ou remediados) que se manifestam em favor de pobres.
Não admira que a palavra "classe" só apareça nessas 700 páginas duas vezes, pelo que notei.
Uma, para se referir ao "ódio de classes", que, obviamente, para Figes, só poderia ser dos operários e da massa pobre contra os ricos, na Revolução de 1917, e não o contrário. E a outra, numa citação de Dostoiévski, que, em sua fase mais nacionalista, escreveu: "Todo russo é russo em primeiro lugar e só depois pertence a uma classe".
Uma tese rotineira no pensamento nacionalista e conservador de qualquer país e qualquer tempo e que, por isso mesmo, pouco ajuda a entender os dilemas dos intelectuais russos da época.
Mas há outras ausências lexicais significativas no livro.
A obra abrange o período entre os séculos 17 e 20 (embora, às vezes, recue mais ainda no tempo, e são esses seus melhores trechos). Mesmo assim, não vi nenhuma vez em suas páginas as palavras "capitalismo" e "colonialismo", certamente os processos centrais de toda aquela época.
O fato de o Império Russo também estar envolvido nesses processos, ainda que com algum atraso e de forma periférica, torna essas ausências ainda mais reveladoras. Sobretudo quando a atividade dos artistas e intelectuais, que constituem o próprio objeto do livro, se mostra tão explicitamente consciente dos grandes movimentos históricos de seu tempo, sobre os quais incide boa parte de seus questionamentos.
Minha hipótese é que se trata de um esforço geral, presente nesse livro e em outros semelhantes, para descontextualizar os fatos apresentados, abstrair a experiência histórica russa do seu ambiente internacional de conjunto.
Porém, como se trata de um livro de história, é impossível não apresentar algum contexto. Dessa forma, o autor procede a uma seleção programática de elementos contextuais, na qual o que fica de fora pesa mais do que o que entra em cena.
Por exemplo, ao tratar da presença de membros da elite russa em Paris, durante alguns anos, após a vitória sobre Napoleão, em 1812, o autor afirma que "eles foram profundamente marcados pelo seu breve encontro com o Ocidente, que confirmou sua convicção da dignidade pessoal de todo ser humano".
Contudo, a visão que os intelectuais russos tinham do "Ocidente" estava longe de ser tão uniforme. Pois o colonialismo, que exauria a riqueza de enormes populações em benefício de poucos, a escravidão, que submetia milhões de africanos, e a franca exploração do povo pobre das cidades de ponta, como Londres e Paris, povoavam de dilemas os pensamentos da elite intelectual russa e tornavam seu conceito de "Ocidente" muito mais problemático, e concreto, que o de Figes.
Outro exemplo do mesmo procedimento: ao relatar a persistência de crenças pagãs na sociedade russa, o autor diz que as famílias nobres se apegavam a "superstições pagãs que qualquer europeu desdenharia como bobagem de servos", numa generalização que "qualquer europeu" veria no mínimo como arriscada.
A imagem da Europa que Figes esboça para compor o fundo contra o qual, às vezes, projeta os temas russos é uma abstração, um cenário difuso, calcado em retórica.

'LEVEZA' LIMITADORA

Se Figes nos permitisse pelo menos vislumbrar esse contexto de maior escala, muitas situações apresentadas no livro ficariam mais compreensíveis e menos rasas.
Por exemplo, quando o autor diz, e repete com ênfase (como se nos avisasse: não se esqueçam), que Liev Tolstói "era um conde que queria ser camponês". Caricaturas e simplificações desse tipo, infelizmente não raras no livro, nada esclarecem, incentivam no leitor uma atitude desdenhosa e superior e, em vez de aprofundar a discussão, a reduz quase à dimensão da fofoca.
Isso nos leva a observar que, na exposição de seu material, o livro, muitas vezes, adota um critério antes jornalístico do que ensaístico.
Qualquer história ou circunstância grotesca, picante, tétrica ou cômica terá garantido um espaço de algum destaque, em detrimento do esforço para compreender significados mais gerais e em prejuízo da contextualização, quer em relação ao tempo que nos separa de tais fatos, quer em relação ao que ocorria em outras sociedades, na mesma época.
Desse modo, convenhamos, só resta ao leitor tentar entender tais informações pela perspectiva "moral".
Ao discutir a presença do elemento nacional nas obras artísticas russas, Figes tende a se deter em questões rasas.
Um exemplo é o caso do compositor italiano Catterino Cavos. Quando o Pedro o Grande fundou a nova capital, São Petersburgo, contratou muitos artistas e artesãos europeus. Entre eles, o compositor Cavos, que chegou a Petersburgo aos 23 anos de idade e ali viveu até os 65 anos.
Como Cavos foi nomeado diretor do teatro de ópera na capital, compôs obras com temas históricos russos para serem encenadas ali, incorporando melodias folclóricas russas. Isso foi, mais ou menos, o início da extraordinária tradição da ópera russa, na qual pesa bastante a temática histórica nacional.
Pois basta isso para Figes considerar a situação "irônica" e, em tom de zombaria, tirar a seguinte conclusão: "O 'caráter nacional' da música russa, portanto, foi desenvolvido pela primeira vez por um estrangeiro".
Ou seja, o pressuposto de Figes é que só valeria falar em caráter nacional das obras se o elemento estrangeiro estivesse de todo ausente. Mas o estranho, nesse trecho, não é só o fato de Cavos ter passado quase dois terços da vida na Rússia, o que, por si só, já relativizaria bastante a conclusão de Figes.
O grave, o limitador, me parece, está no método adotado pelo autor, que toma os dados isoladamente (o compositor que nasceu na Itália, de um lado; a ópera russa, do outro), em vez de tentar compreendê-los em suas relações.
Seria mais produtivo entender o caráter nacional a partir do teor das relações entre os elementos locais e os estrangeiros. Verificar como o elemento externo adquire novos e imprevistos significados em seu novo ambiente. E acompanhar essa dinâmica à luz dos grandes processos históricos em curso.
Desconfio que, no caso do compositor Cavos, Figes, além disso, não tenha resistido à tentação de fazer uma piadinha, expediente compulsório na sua orientação jornalística, que impõe que seu livro seja "leve".

ESTEREÓTIPOS E MITOS

Esse método, que deixa de lado as relações e os processos para se fechar nos elementos isolados, leva o autor a interpretar certas obras de forma também limitadora.
Ao tratar do conto "A Aldeia", de Ivan Búnin, e do livro "Infância", de Maksim Górki, Figes reduz o alcance dos textos, tratando-os como a constatação da brutalidade e ignorância intrínsecas dos camponeses, descritas nas páginas anteriores, referentes à Revolução de 1905.
No entanto, nem é preciso olhar "por debaixo da aparência artística" para enxergar naquelas obras um questionamento sobre as condições em que viviam os camponeses, sobre o regime de relações que produzia tais condições e até sobre a validade de conceitos como brutalidade e ignorância.
Mas aí se abriga uma tese constante no livro de Figes, útil para o que é, senão seu propósito principal, pelo menos uma preocupação subjacente em seus argumentos.
Vejamos um exemplo. Quando trata da ópera "Boris Godunov", de Mússorgski, Figes aponta a influência do historiador Kostomárov.
A ópera se passa num período de grande turbulência, à beira de um vazio de poder. Kostomárov, num livro de 1866, descreve assim a condição dos camponeses no fim do reinado de Godunov, em 1605:
"Estavam dispostos a se lançar com alegria a quem os comandasse contra Boris, a quem lhes prometesse uma melhora de vida. A questão não era aspirar a essa ou aquela ordem política ou social; a imensa multidão de sofredores se ligava facilmente a um novo rosto, na esperança de que, sob a nova ordem, a situação ficasse melhor do que a antiga."
Disso, Figes prontamente extrai uma conclusão ambiciosa: "É uma concepção do povo russo —sofredor e oprimido, cheio de violência destrutiva e impulsiva, incontrolável e incapaz de controlar o próprio destino— que se aplicaria igualmente a 1917".
O fato de Kostomárov estar se referindo a um período tão específico da história russa que ficou conhecido como "o tempo turbulento" ("smútnoie vrémia") não inibe Figes de ver ali uma "concepção do povo russo", "incapaz de controlar o próprio destino", e, de modo mais arbitrário ainda, evocar a Revolução de 1917 como prova de tal tese.
Assim se constroem os estereótipos e os mitos históricos, por mais que estejam municiados de notas de rodapé e referências bibliográficas.
É revelador observar como aflora, aqui, do nada, a Revolução de 1917. É uma espécie de fantasma que, num caso curioso de anacronismo em que a história anda para trás, assombra boa parte da exposição que Figes apresenta dos séculos 18 e 19.
A seção dedicada ao período soviético pouco ajuda a compreender o que se passou, no geral. O texto se resume, praticamente, a relatos individualizados dos piores momentos da repressão do regime de Stalin sobre alguns intelectuais e artistas.
Aqui, o critério jornalístico adota ênfases panfletárias, uma linguagem bombástica, ausente em todo o resto do livro, que estressa o leitor e bloqueia qualquer entendimento mais racional. Limito-me a observar que a diversidade da cultura do período soviético, que o próprio livro deixa transparecer, põe em dúvida a tese da sociedade "monolítica" que o autor repisa.
Ainda assim, o livro de Figes será útil para o leitor conhecer o fenômeno da arte russa. Contanto que esteja munido de um ferrenho senso crítico e prevenido contra armadilhas retóricas e generalizações afoitas, ele poderá, por conta própria, estabelecer relações entre os dados que o livro apresenta e, com menos espalhafato, buscar os caminhos para o entendimento da questão.
Um mérito especial é o espaço dedicado ao influxo da cultura dos mongóis, ou tártaros. Pois Gengis Khan e as tribos nômades que formaram a chamada "Horda de Ouro" ocuparam boa parte do território eslavo por 200 anos, do século 13 ao 15. A riqueza da contribuição desses invasores, que acabaram por se integrar à vida russa, não costuma ser destacada.
Outro benefício que o livro oferece está nas referências à pintura russa do século 19, pois é um período bem menos lembrado do que aquele dos artistas de vanguarda das primeiras décadas do século 20.
Grandes pintores como Levitan, Riépin, Venetsiánov, Verescháguin, Vasnetsov são comentados com algum destaque, e suas obras merecem ficar ao lado das melhores de seu tempo.

Análise de Rubens Figueiredo, para a Folha de São Paulo. Rubens Figueiredo é tradutor e escritor. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Você também sofre com a solidão a dois?

Muitas mulheres que tenho pesquisado estão insatisfeitas com seus casamentos. Elas sentem falta de escuta, de conversa, de atenção, de reconhecimento, de intimidade etc. Algumas ainda dizem que "falta tudo".
Uma professora de 43 anos disse que sofre com a "solidão a dois":
"Ele chega e vai direto para o computador, nem me dá um beijo ou um abraço. Simplesmente me ignora, eu me sinto invisível. Ele destruiu minha autoestima. Não me conta como foi o dia dele, não pergunta como foi o meu. Faço tudo sozinha, ele não gosta de sair de casa, ir ao cinema, jantar fora, viajar. Dizem que é impossível ser feliz sozinha, mas eu acho que a pior solidão é a solidão a dois."
O marido da professora, um engenheiro de 47 anos, reclama de falta de paz e de compreensão:
"Mal abro a porta e começam as cobranças e reclamações. Ela diz que não ajudo em nada, que não escuto o que ela fala, que não valorizo o trabalho dela. É um poço de insatisfação. Trabalho o dia inteiro e quero paz em casa, mas ela vive me criticando. Pior ainda, ela adora me desvalorizar na frente de todo mundo e me comparar com os maridos maravilhosos das amigas."
Tenho observado casamentos que parecem um permanente jogo de dominação. Com suas "brincadeiras", críticas, provocações e implicâncias, muitos casais sentem prazer em envergonhar, humilhar e desvalorizar o parceiro, até mesmo publicamente. Em vez de companheiros, transformam-se em adversários que conseguem destruir a autoestima e a paz do outro.
Ele e ela afirmam que desejam uma relação mais prazerosa, leve e divertida. Mas enquanto ele enfatiza que quer paz, tranquilidade e sossego, ela afirma que quer mais conversa, atenção, reconhecimento, intimidade, beijo na boca e muito mais.
Perguntei às mulheres insatisfeitas: "Por que, então, você não se separa?". Elas responderam: "não quero que meus filhos sofram", "com o tempo, todo casamento é assim mesmo", "mulher sozinha é estigmatizada como fracassada", "estou muito velha para recomeçar", "nunca mais vou encontrar um homem que me ame", "não tenho coragem", "acho que tenho medo de ficar sem um homem para chamar de meu", "é a cultura do sou
infeliz, mas tenho marido".
Você também sofre com a "solidão a dois"?


Texto de Mirian Goldenberg, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Desde que PT caiu, reveses do combate à corrupção se acumulam

Neste exato momento, as evidências contra Michel Temer são o que PT e PSDB sempre sonharam encontrar um sobre o outro. Quando Dilma caiu, não havia contra ela delação que fosse nem sequer comparável à de Lúcio Funaro contra Temer. Se FHC tivesse sido gravado naquela conversa com Joesley, cairia antes do raiar do dia seguinte.
E, no entanto, Temer acaba de sobreviver a mais uma denúncia. Além da gambiarra de Gilmar Mendes no TSE, já são duas fugas pelo porão do Congresso.
E isso tudo enquanto o Brasil ainda vive sob os efeitos da Lava Jato, a maior investigação de corrupção da história.
Todos os quadros importantes do governo Temer são pesadamente envolvidos nos escândalos. E o que é pior: os escândalos parecem ter destroçado PT e PSDB, que se alternavam no poder, mas deram a Presidência ao PMDB, que foi parceiro de todos os partidos em todos os escândalos.
Ninguém nunca achou que a Lava Jato conseguiria pegar todos os corruptos. Se Temer fosse um caso isolado de picareta que conseguiu fugir, menos mal. Mas há razões para ter medo de que não seja só isso.
Precisamos lidar com a possibilidade de que a janela em que os governantes brasileiros estiveram submetidos à lei, aberta quando o PT chegou ao poder, esteja se fechando.
Os governos petistas eram claramente mais fracos que seus antecessores de centro-direita: eram francamente minoritários no Congresso, nunca tiveram um único veículo de grande mídia que os apoiasse, e estavam sempre sob suspeita do empresariado. A opinião pública teria destroçado o PT se Lula tivesse indicado para o Supremo alguém tão partidário quanto Gilmar Mendes.
Nesse contexto, o jornalismo de denúncia teve uma era de ouro, Joaquim Barbosa prendeu os acusados do mensalão enquanto o grupo deles ainda estava no poder, e a Lava Jato começou seu trabalho.
Desde que o PT caiu, os reveses do combate à corrupção se acumulam. A boa notícia é que a melhor imprensa não deixou de denunciar os escândalos contra Temer; mas o apoio de todos os grandes veículos às reformas acaba colocando um limite no tom e na ênfase. O empresariado provavelmente preferia um governo liberal e honesto, mas, já que não há nenhum em oferta, acaba aceitando um liberal e corrupto. E a esquerda na oposição simplesmente não é forte o suficiente para sustentar politicamente quem enfrentar o novo grupo no poder.
Veja que o problema não é que o PT fosse inocente. É que ele era mais fraco. Sergio Moro nunca correu risco nenhum de ser escrachado pela opinião pública enquanto processava Lula, mas Rodrigo Janot foi massacrado por desmascarar Temer. Não há como comparar o poder de fogo dos blogs petistas anti-Moro com o da atual turma chapa branca.
Na última quarta-feira, após a vitória de Temer, o deputado Cunha Boy Carlos Marun (PMDB-MS) dançou para as câmeras cantando "Tudo está no seu lugar", de Benito di Paula.
As coisas não estão onde deveriam estar, Marun, mas, ao que parece, estão voltando para onde estavam antes. A janela de transparência de 2003-2016 parece estar se fechando sob governos mais fortes que os petistas. Resta torcer para que Justiça e imprensa tenham acumulado forças suficientes nesse período para sobreviver na nova fase.
Até agora, só perderam.


Texto de Celso Rocha de Barros, na Folha de São Paulo

sábado, 28 de outubro de 2017

Perguntar quem nunca será preso é forma de entender o poder no Brasil

O que há de mais cômico no Brasil destes últimos tempos é o tom.
Diante de um país no qual o ocupante da Presidência rifa direitos, facilita o uso de trabalho escravo, compra deputados e usa a máquina governamental para livrar-se de uma denúncia da procuradoria por formação de organização criminosa e obstrução de justiça, no qual um ministro do STF recebe 46 ligações de Whatsapp de um réu com o qual ele tem ligações sabidamente carnais, o cômico é ouvir o tom de quem narra tudo isto como se estivéssemos a assistir os embates políticos de uma democracia.
Deve ser algo parecido à República velha, na qual uma oligarquia inventava eleições de fachada e a imprensa descrevia aquele jogo de cena como se fosse um embate democrático.
O fato é que nunca o país mostrou de maneira tão explícita quão bem ele se acomoda a ser uma cleptocracia na qual os três poderes estão organizados para defender uma espécie de núcleo duro da espoliação nacional.
O Estado brasileiro estará disposto a usar de toda sua violência e intimidação para deixar intocada sua casta.
O caso do senhor Aécio Neves é exemplar neste sentido.
Mesmo sendo pego em gravações telefônicas expondo explicitamente manobras de obstrução de Justiça, mesmo dizendo ser necessário conseguir um atravessador que pudesse ser morto posteriormente, este senhor continua senador da República.
Ou seja, se quisermos entender como o poder funciona no Brasil, temos que nos perguntar sobre quem é intocado.
Quem, a despeito de toda cortina de fumaça, escapa sempre das amarras da Justiça. Quem, mesmo denunciado, nunca será preso.
Há várias formas de um país se degradar e o Brasil tem conhecido a mais brutal de todas, a saber, a explicitação dos mecanismos implícitos de funcionamento da democracia liberal.
A democracia liberal funciona com um duplo sistema de normas.
O primeiro é um sistema explícito de regras e normas enunciadas no ordenamento jurídico.
O segundo é um sistema implícito de práticas e violências que, a princípio, não devem vir à tona, que deve ser feito em silêncio.
Ou seja, a democracia não é apenas o império da lei. Ela é a gestão de anomias cujas dinâmicas não devem ser explicitadas.
No entanto, no Brasil atual, são tais práticas que ganham a cena sem que sua explicitação provoque maiores consequências. Isto ao menos tem uma consequências positiva, a saber, mostrar quão farsesca sempre foi nossa República.
Na melhor das hipóteses, isto pode deixar claro o tipo de tarefa política que se impõe daqui para a frente. A tarefa de ser capaz de se confrontar com a incapacidade nacional de construir uma democracia e com a necessidade de produzir o que até agora nunca existiu.
Não poderia ser diferente em um país que conheceu uma espécie de "transição democrática infinita", mas no sentido do mal infinito hegeliano.
Ou seja, uma transição que nunca terminou, que foi feita para nunca terminar.
Pois uma democracia efetiva só poderia ser construída sobre as bases de um empuxo social em direção à constituição de uma sociedade economicamente igualitária.
Mas hoje sabemos que mesmo as políticas implementadas nos últimos quinze anos não tiveram impacto significativo algum na desigualdade que destrói toda possibilidade de uma sociedade minimamente coesa.
Ao Brasil, cabe a possibilidade de continuar a farsa, brincando de eleições no interior de um sistema que funciona para blindar o núcleo duro do poder e para jogar a polícia para cima dos descontentes.
Ou aqueles que tomaram nota da degradação podem recusar as saídas autoritárias que rondam a história brasileira e procurar criar, pela primeira vez, as bases de um poder popular que possa se colocar como a força imanente e presente da República.
Em um momento no qual o resto do mundo se debate com os fins da democracia e a ascensão das estratégias populistas, o Brasil pode se colocar em um horizonte global de procura por uma experiência de emancipação social que é a grande tarefa deste início de século.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

Literatura na Rússia só é livre porque hoje ninguém mais lê, diz professor


Literatura na Rússia só é livre porque hoje ninguém mais lê, diz professor



IRINEU FRANCO PERPETUO



RESUMO Referência em literatura soviética, Ievguêni Dobrenko explica a importância dos livros na Rússia do passado e do presente, afirma que o realismo socialista era arte de má qualidade que produzia ideologia para consumo, questiona o Nobel recebido por Svetlana Alexievich e classifica Putin como "oportunista ordinário".
*
Nascido em Odessa (Ucrânia) em 1962, Ievguêni Dobrenko é referência internacional na área da literatura soviética e pós-soviética.
Chefe do departamento de estudos russos e eslavônicos da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, ele escreveu, organizou e editou 20 livros, com destaque para "The Cambridge Companion to Twentieth-Century Russian Literature" (compêndio sobre literatura russa do século 20), "Russian Literature since 1991" (literatura russa desde 1991) e "Political Economy of Socialist Realism" (economia política do realismo socialista).
Acaba de concluir mais um, sobre a cultura do stalinismo tardio, ou seja, dos últimos anos da Segunda Guerra Mundial até a morte do ditador Josef Stálin, em 1953.
Em entrevista concedida à Folha por e-mail, em russo, ele definiu o stalinismo como "um caso especial de reação da sociedade patriarcal ao desafio da modernização. Stalinismo, nazismo, fascismo, são todos tentativas da Idade Média para se defender da modernização, liberalização, globalização". Para Dobrenko, a "tarefa de todas as pessoas pensantes, intelectuais, é participar da luta contra a Idade Média contemporânea".
*
Folha - A literatura, na Rússia, sempre foi percebida como mais do que "apenas literatura". Quanto isso mudou na Rússia pós-soviética?
Ievguêni Dobrenko - Na ausência de liberdade política, a literatura se torna a única tribuna do pensamento social. Por isso a literatura na Rússia sempre foi mais que literatura. Era filosofia, psicologia e política. Era a única tribuna social. Simplesmente não havia outras formas de autoexpressão, protesto político e reflexão nacional. Nem no século 19, nem no 20.
Na Rússia pós-soviética, isso se modifica fortemente. A literatura se desenvolve com relativa liberdade, porque perde status. Pode ser livre porque ninguém a lê, encontra-se num nicho social pequeno.
Veja as "revistas grossas". Toda literatura estava nelas. Na época da perestroika [abertura econômica na década de 1980], quando houve um pico de interesse na literatura e na política, chegaram a tiragens de muitos milhões de exemplares. Agora são míseras. Ninguém as lê, além dos literatos.
A literatura na Rússia hoje é livre porque ninguém precisa dela. As funções de propaganda e luta política saíram da literatura para outras mídias: TV, internet etc.
Quais as consequências? Quem ama e acompanha a literatura diz que, em comparação com os séculos 19 e 20, acontece pouca coisa interessante. Mas o mesmo pode ser dito hoje de qualquer literatura nacional: alemã, inglesa, espanhola... Elas não têm um Goethe, um Shakespeare, um Cervantes.
A partir da perestroika, houve mais liberdade na Rússia para os artistas vivos e o país descobriu as obras dos emigrados e dissidentes cujas obras eram proibidas. Qual foi o impacto dessa descoberta na Rússia? O processo de unificação do cânone russo nas artes foi concluído?
Na época da perestroika, produziu-se verdadeira avalanche, uma torrente imensa de literatura de emigração, literatura dissidente e, por fim, literatura dos anos 1920, que fora escondida dos leitores. Isso jamais acontecera na história da literatura russa. A influência na consciência das massas dessa literatura recém-descoberta foi imensa e, pode-se dizer, revolucionária.
Aliás, falo não apenas da literatura russa, mas da literatura e do cinema ocidental do século 20. Após décadas de realismo socialista e pseudoliteratura oficial, havia novamente a descoberta da vanguarda, diversas tendências modernistas e muitos escritores e obras de primeira classe.
Contudo, até hoje o processo de unificação do cânone literário russo não foi completado. Antes, retirava-se da literatura tudo que parecia antissoviético. Hoje, ao contrário, afasta-se tudo que é soviético. Uma censura substituiu a outra.








Você escreveu que "o realismo socialista é o meio de produzir socialismo, a máquina de transformar a realidade soviética em socialismo". Poderia explicar?
Escrevi um livro inteiro a esse respeito [economia política do realismo socialista]. Se, do quadro do "socialismo", você tentar subtrair mentalmente o realismo socialista —romances sobre o entusiasmo na produção, poemas sobre a alegria do trabalho, filmes sobre a vida feliz, peças e quadros sobre a riqueza do país dos sovietes etc.—, não vai lhe sobrar nada que possa ser chamado propriamente de socialismo.
Vão sobrar dias cinzentos, o trabalho rotineiro cotidiano, o modo de vida desorganizado e pesado.
Em outras palavras, como essa realidade pode ser atribuída a qualquer outro sistema econômico, de socialismo, no fundo, não sobra nada. É possível concluir que o realismo socialista produziu os valores simbólicos do socialismo, em lugar da realidade do socialismo.
Claro que o sistema stalinista não era socialismo nenhum. Não tinha nada em comum com o projeto marxista, além da retórica. Politicamente, era o habitual despotismo feudal oriental; economicamente, um capitalismo estatal com terrível exploração da população; culturalmente, um retorno à Idade Média. Para que as pessoas achassem que era socialismo, fez-se necessário o realismo socialista.
Pode-se dizer que a sociedade soviética era, antes de tudo, uma sociedade de consumo –de consumo ideológico. A função principal [do realismo socialista] não é propagandística, mas estética e transformadora. Mística, privada de apoio na natureza humana, a economia política do socialismo não pode ser compreendida fora da estética. Era, inicialmente, um projeto imaginário e, consequentemente, político-estético.
O romance social antissoviético, como os de Alexander Soljenítsin, é essencialmente um derivativo do realismo socialista. O mesmo poderia ser dito dos romances de Svetlana Alexievich? Quanto o realismo socialista ainda reverbera na produção cultural russa?

Soljenítsin é um escritor soviético talentoso. Chamo isso de "literatura soviética antissoviética". A literatura russa do século 20 desenvolveu-se sob o signo dos clássicos. Os bolcheviques queriam criar uma nova literatura, mas foram educados nos clássicos e aprenderam com eles. Nos anos 20, havia o slogan "aprenda com os clássicos". Todos queriam escrever como Tolstói.
O realismo socialista é uma imitação do "grande estilo" dos clássicos russos. Simplesmente não havia outros exemplos, pois o modernismo não era reconhecido nem pelos bolcheviques, nem pelos tradicionalistas. Todos escreviam "sob Tolstói". Por isso Soljenítsin é derivativo do realismo socialista, mas o próprio realismo socialista é um derivativo dos clássicos russos.
Quanto a Alexievich, apesar de meu profundo respeito por seu trabalho —um trabalho literário muito importante, um trabalho social muito importante—, apesar de toda minha simpatia por sua posição política cidadã, conceder-lhe o Nobel pareceu-me (e não só a mim) inexplicável.
No geral, essa marginalização do Nobel na área da literatura me parece evidente. Muitos premiados continuaram sendo autores pouco conhecidos, enquanto escritores que já eram clássicos passaram desapercebidos.
Sobre o realismo socialista, é claro que continua parte importante da literatura russa contemporânea, só que não mais como sujeito, e sim como objeto –retrabalhado pela "soc-art" na pintura e pelos conceitualistas na literatura, por Lev Rubinstein, Dmitri Prígov, Vladimir Sorókin, Pelévin etc.
Mas não acho que o realismo socialista possa renascer. Isso é impossível, porque o realismo socialista não é simplesmente um estilo, ou algumas técnicas e convenções literárias. Não, o realismo socialista são, antes de tudo, as grandes instituições. É toda uma máquina de direção e controle. E, claro, é um sistema de coerção e violência, ou ameaça de violência.
O socialismo morreu junto com o gulag [campo de trabalho forçado]. Sem o gulag, ele não existe. Basta passar o medo, a pressão institucional se desintegrar ou enfraquecer, e o realismo socialista se apaga, como uma vela.
Mas, na medida em que o realismo socialista era uma arte politicamente engajada de má qualidade, é claro que ele permanece na literatura. Por exemplo, os romances monstruosos de Aleksandr Prokhánov —típica grafomania política paranoica— são derivativos do realismo socialista. Essa literatura é muito produzida, embora seja absolutamente periférica.
As artes russas pós-soviéticas evoluíram de uma produção com ausência quase total e sem precedentes de censura, nos anos Gorbatchov e Iéltsin, para o que parece ser um retorno da censura, especialmente a partir de 2014. Essa mudança pode ser comparada ao ataque stalinista às artes, em 1932?
Não, de jeito nenhum. E a questão não é o grau, mas a natureza da censura. Claro que a pressão sobre a intelligentsia criativa está aumentando. Seria estranho esperar outra coisa de [Vladimir] Putin. É um autocrata, que restaurou o regime autoritário. Para ele, a arte não é perigosa nem necessária, como era perigosa e necessária para Stálin.
O regime de Putin está baseado em um impulso antimodernização (nisso consiste seu principal perigo para a Rússia, cujo desenvolvimento está sempre atrasado com relação ao Ocidente). É um regime que leva não à modernização, mas à arcaização. Um arcaísmo patriarcal baseado em "laços espirituais", "santuários", vários tabus.
Trata-se de um oportunista ordinário, para o qual o principal é o poder pessoal. Nisso é parecido com Stálin. Para ele, o antiocidentalismo é uma posição política, que lhe garante o apoio de seu eleitorado. E ele vai explorá-lo.
É um populista clássico. Daí vem o que você chama de censura. Essencialmente, é a continuação da luta da sociedade contemporânea contra a medieval.
Essa luta acontece em todos os lugares do mundo. É um processo que começou com a Revolução Francesa e vai levar mais de século, se a humanidade não perecer em uma guerra nuclear ou em uma catástrofe ecológica produzida por ela mesma.

Você escreveu que "o realismo socialista é o meio de produzir socialismo, a máquina de transformar a realidade soviética em socialismo". Poderia explicar?
Escrevi um livro inteiro a esse respeito [economia política do realismo socialista]. Se, do quadro do "socialismo", você tentar subtrair mentalmente o realismo socialista —romances sobre o entusiasmo na produção, poemas sobre a alegria do trabalho, filmes sobre a vida feliz, peças e quadros sobre a riqueza do país dos sovietes etc.—, não vai lhe sobrar nada que possa ser chamado propriamente de socialismo.
Vão sobrar dias cinzentos, o trabalho rotineiro cotidiano, o modo de vida desorganizado e pesado.
Em outras palavras, como essa realidade pode ser atribuída a qualquer outro sistema econômico, de socialismo, no fundo, não sobra nada. É possível concluir que o realismo socialista produziu os valores simbólicos do socialismo, em lugar da realidade do socialismo.
Claro que o sistema stalinista não era socialismo nenhum. Não tinha nada em comum com o projeto marxista, além da retórica. Politicamente, era o habitual despotismo feudal oriental; economicamente, um capitalismo estatal com terrível exploração da população; culturalmente, um retorno à Idade Média. Para que as pessoas achassem que era socialismo, fez-se necessário o realismo socialista.
Pode-se dizer que a sociedade soviética era, antes de tudo, uma sociedade de consumo –de consumo ideológico. A função principal [do realismo socialista] não é propagandística, mas estética e transformadora. Mística, privada de apoio na natureza humana, a economia política do socialismo não pode ser compreendida fora da estética. Era, inicialmente, um projeto imaginário e, consequentemente, político-estético.
O romance social antissoviético, como os de Alexander Soljenítsin, é essencialmente um derivativo do realismo socialista. O mesmo poderia ser dito dos romances de Svetlana Alexievich? Quanto o realismo socialista ainda reverbera na produção cultural russa?

Soljenítsin é um escritor soviético talentoso. Chamo isso de "literatura soviética
antissoviética". A literatura russa do século 20 desenvolveu-se sob o signo dos clássicos. Os bolcheviques queriam criar uma nova literatura, mas foram educados nos clássicos e aprenderam com eles. Nos anos 20, havia o slogan "aprenda com os clássicos". Todos queriam escrever como Tolstói.

O realismo socialista é uma imitação do "grande estilo" dos clássicos russos. Simplesmente não havia outros exemplos, pois o modernismo não era reconhecido nem pelos bolcheviques, nem pelos tradicionalistas. Todos escreviam "sob Tolstói". Por isso Soljenítsin é derivativo do realismo socialista, mas o próprio realismo socialista é um derivativo dos clássicos russos.
Quanto a Alexievich, apesar de meu profundo respeito por seu trabalho —um trabalho literário muito importante, um trabalho social muito importante—, apesar de toda minha simpatia por sua posição política cidadã, conceder-lhe o Nobel pareceu-me (e não só a mim) inexplicável.
No geral, essa marginalização do Nobel na área da literatura me parece evidente. Muitos premiados continuaram sendo autores pouco conhecidos, enquanto escritores que já eram clássicos passaram desapercebidos.
Sobre o realismo socialista, é claro que continua parte importante da literatura russa contemporânea, só que não mais como sujeito, e sim como objeto –retrabalhado pela "soc-art" na pintura e pelos conceitualistas na literatura, por Lev Rubinstein, Dmitri Prígov, Vladimir Sorókin, Pelévin etc.
Mas não acho que o realismo socialista possa renascer. Isso é impossível, porque o realismo socialista não é simplesmente um estilo, ou algumas técnicas e convenções literárias. Não, o realismo socialista são, antes de tudo, as grandes instituições. É toda uma máquina de direção e controle. E, claro, é um sistema de coerção e violência, ou ameaça de violência.
O socialismo morreu junto com o gulag [campo de trabalho forçado]. Sem o gulag, ele não existe. Basta passar o medo, a pressão institucional se desintegrar ou enfraquecer, e o realismo socialista se apaga, como uma vela.
Mas, na medida em que o realismo socialista era uma arte politicamente engajada de má qualidade, é claro que ele permanece na literatura. Por exemplo, os romances monstruosos de Aleksandr Prokhánov —típica grafomania política paranoica— são derivativos do realismo socialista. Essa literatura é muito produzida, embora seja absolutamente periférica.
As artes russas pós-soviéticas evoluíram de uma produção com ausência quase total e sem precedentes de censura, nos anos Gorbatchov e Iéltsin, para o que parece ser um retorno da censura, especialmente a partir de 2014. Essa mudança pode ser comparada ao ataque stalinista às artes, em 1932?
Não, de jeito nenhum. E a questão não é o grau, mas a natureza da censura. Claro que a pressão sobre a intelligentsia criativa está aumentando. Seria estranho esperar outra coisa de [Vladimir] Putin. É um autocrata, que restaurou o regime autoritário. Para ele, a arte não é perigosa nem necessária, como era perigosa e necessária para Stálin.
O regime de Putin está baseado em um impulso antimodernização (nisso consiste seu principal perigo para a Rússia, cujo desenvolvimento está sempre atrasado com relação ao Ocidente). É um regime que leva não à modernização, mas à arcaização. Um arcaísmo patriarcal baseado em "laços espirituais", "santuários", vários tabus.
Trata-se de um oportunista ordinário, para o qual o principal é o poder pessoal. Nisso é parecido com Stálin. Para ele, o antiocidentalismo é uma posição política, que lhe garante o apoio de seu eleitorado. E ele vai explorá-lo.
É um populista clássico. Daí vem o que você chama de censura. Essencialmente, é a continuação da luta da sociedade contemporânea contra a medieval.
Essa luta acontece em todos os lugares do mundo. É um processo que começou com a Revolução Francesa e vai levar mais de século, se a humanidade não perecer em uma guerra nuclear ou em uma catástrofe ecológica produzida por ela mesma.

IRINEU FRANCO PERPETUO, 46, é jornalista e tradutor. 


Reprodução da Folha de São Paulo

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Se STF acertou nos casos de Delcídio e Cunha, Aécio deveria estar preso

O Supremo Tribunal Federal não conseguiu explicar à opinião pública por que Aécio não foi preso como foi Delcídio do Amaral. Tampouco conseguiu explicar por que suas decisões contra Aécio terão que ser referendadas pelo Senado, rota de fuga que foi fechada para Eduardo Cunha.
Se as decisões sobre o candidato da direita na última eleição presidencial estiverem corretas, as decisões sobre Delcídio e Cunha estavam erradas. Se as decisões sobre Delcídio e Cunha estavam certas, Aécio deveria estar preso.
Não sou constitucionalista, não tenho a pretensão de saber qual é o caso. Mas é evidente que, se todas essa decisões foram constitucionais, o Brasil teve outra Constituição durante a guerra para derrubar Dilma Rousseff.
Não se trata, apenas, de um político corrupto escapando da Justiça. O caso de Aécio é representativo de uma tendência muito mais grave: desde que o PT caiu, a maré anti-corrupção virou.
Delcídio caiu porque era petista, Cunha caiu porque foi pego antes de a maré virar (e, mesmo assim, só depois de ter derrubado Dilma). Aécio é tucano, do grupo que subiu ao poder com Temer. Não é Aécio que tem mais capacidade de resistir à Lava Jato: é a coalizão conservadora que chegou ao poder após o impeachment.
Não é, portanto, possível descartar a hipótese de que a direita fisiológica regula a margem de ação das instituições brasileiras conforme sua conveniência.
Depois da decisão, o mundo caiu sobre a cabeça do STF, que foi acusado de não estar à altura de sua função constitucional. Bom, tem o Gilmar, mas, mesmo assim, não acho que essa seja a melhor análise.
Se a ministra Cármen Lúcia deu seu voto em favor de Aécio por temer uma guerra contra o Senado, sua leitura da situação estratégica estava correta: no momento, o Supremo Tribunal Federal é muito mais fraco que o conjunto dos senadores.
Durante a breve vigência da Constituição de 2015, o Supremo conseguiu derrubar corruptos importantes porque, na luta para derrubar Dilma Rousseff, nenhum dos analistas que hoje se preocupam com equilíbrio institucional dava a mínima para isso. Os empresários, que hoje só querem estabilidade, inflavam patos e os ânimos. Os partidos de direita que bradavam contra Delcídio hoje são o governo e têm como prioridade se livrar da cadeia, nem que para isso tenham que livrar também os petistas que derrubaram.
E a opinião pública? Como dizia Millôr Fernandes, opinião pública é a que se publica. Se o mestre, no céu dos colunistas, nos permitir uma atualização, opinião pública é a que se posta em redes sociais. Desde a guerra do impeachment, a opinião postada está sob controle da chamada Nova Direita, essa turma que não consegue mais emprego como roqueiro, ator pornô, filósofo ou militar, e descobriu que falar mal da esquerda rende um trocado.
E onde estava a Nova Direita durante o período que antecedeu o julgamento de Aécio? Estava fechando exposições de temática LGBT. A indignação que, em 2015, teria se voltado contra Aécio, agora caiu sobre o peladão do museu. O que era, é claro, o plano.
Desde que o Senado perdeu o medo da opinião pública, voltou a ser forte o suficiente para quebrar o Supremo. E enquanto a opinião pública brasileira continuar sendo a Marcha do Orgulho Otário, não adianta reclamar.


Celso Rocha de Barros, na Folha de São Paulo

A epidemia da inovação

O mundo corporativo é a distopia perfeita. De um lado, um modo inequívoco de produção de riqueza que elevou a condição material de vida dos seres humanos a um nível jamais imaginável, do outro lado, um sistema que esmaga o sujeito obrigando-o a competir cotidianamente, sem descansar nunca. Se a perfeição da vida material é uma utopia contínua no mundo contemporâneo, essa mesma perfeição produz níveis elevadíssimos de mal estar, provavelmente garantindo um futuro de mais riqueza regada a desespero a cada dia. Ninguém aguenta mais, mas ninguém pode parar.
Dentro desse quadro, chama atenção a obsessão pela ideia de "inovação". Ela aparece em todos os níveis da vida, do corporativo as pressões psicológicas sobre os mais velhos e mais jovens, num nível epidêmico.
A ideia, profundamente inscrita no "DNA" (como gosta de dizer o mundo corporativo quando "reflete sobre identidades") da modernidade, tem raízes filosóficas claras em obras como a do inglês Francis Bacon (1561-1626), entre outros. Seu projeto de "atar a natureza" a fim de conseguir as respostas necessárias para a melhoria das condições materiais de vida "na natureza" numa futura "Nova Atlântida", associado aos avanços do saneamento básico de Londres ao longo do século 19, são fundamentos básicos dos ganhos técnicos e de gestão de problemas na modernidade. Da natureza ao esgoto, o projeto é o mesmo.
Na vida pessoal, essa epidemia da inovação aparece no modo nefasto como as pessoas buscam "se reinventar" a todo momento. Ela obriga as pessoas a se vem como start ups contínuas num mercado infinito de demandas que vão da saúde física permanente, a beleza sustentável as custas de obsessões, a espiritualidade a serviço da commoditização da alma, enfim, a uma insatisfação existencial contínua como "motivação" para o imperativo da inovação.
É evidente que a proposta é patológica no nível humano, inclusive porque, apesar dos reais avanços tecnológicos na engenharia médica, marchamos para o envelhecimento e a morte, e isso tem impactos definitivos, mesmo que a indústria da inovação, regada a moda da Singularity University, a bola da vez, venda a ideia de que seremos imortais.
A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações "normais" da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas.
Um fato evidente nesse processo é o que muitos chamariam de "pressão do capital". Essa pressão nos obriga a pensar em nós mesmos como uma commodity buscando "investimento" no mercado de um mundo em "movimento", em direção a multiplicação do próprio capital que se expande a medida em que habita a inovação como condição sine qua non de adaptação a ele.
No mundo corporativo, que gasta dinheiro com palestras circenses, a fim de fazer seus "colaboradores riem", assim como uma sessão de meditação em meio ao massacre cotidiano, a epidemia da inovação é um mercado em si mesma.
Neste mundo, o futuro é uma commodity em si mesmo, vendido pelas consultorias de futuro. Citando casos conhecidos como a implantação de fake memories (diante destas, fake news é conversa de crianças), esse mercado da inovação vende a ideia de que num mundo próximo, a indústria de implantação no cérebro de memórias falsas, mas "felizes", eliminará a depressão e toda uma série de quadros clínicos indesejáveis.
Para além do absurdo da ideia, de um ponto de vista meramente médico, a própria noção de uma humanidade vivendo continuamente num parque temático "cognitivo" assusta não pelo suposto avanço médico em si, mas pelo modo como as consultorias do futuro vendem a ideia como o máximo da felicidade e da saúde. É a condição definitiva de idiotas cognitivos, sonâmbulos que caminham pela vida como um pós-humano em processo de extinção. Os neandertais, do alto de sua sabedoria de espécie já extinta, chorariam de pena de nós.


Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo

sábado, 7 de outubro de 2017

Quem sofre de depressão nem sempre parece triste

Trinta e seis horas antes de cometer suicídio, Chester Bennington, do Linkin Park, se divertia com a família num vídeo divulgado por sua mulher. "A depressão não tem rosto ou mau humor", escreveu Talinda, no Twitter.
Não sei como é para outras pessoas que sofrem com a doença, mas ouvi muitas vezes que eu parecia ótima. Eu queria estar bem, me divertir, voltar a experimentar aquilo que chamamos de felicidade. Desejava reencontrar a pessoa que sempre fui até sofrer uma crise de pânico e mergulhar numa tristeza profunda. Era a vontade de superar o problema que fazia com que, na maioria das vezes, eu não parecesse triste. Mas eu sabia que estava.
Durante mais ou menos um ano a hora mais feliz do meu dia era quando eu deitava na cama e fechava os olhos, com a esperança de que aquela noite de sono não terminasse nunca. Não era vontade de morrer, mas eu imaginava que se dormisse muito talvez acordasse mais disposta a ser feliz de novo.
Nunca era o suficiente. Nem o sono, nem os remédios, nem a paciência do meu psicanalista ou o infinito amor que recebi do meu marido e dos meus pais naquele período.
Eu queria estar bem. Me esforçava a reagir e parecer recuperada. Não podia decepcionar quem estava em minha volta. Então, eu tentava alcançar dentro de mim a pessoa que havia se perdido, mas durante a maior parte do tempo não tive forças para mergulhar tão fundo para resgatar aquela parte que havia naufragado.
Lembro que alternava entusiasmo exagerado em qualquer coisa que fizesse com dias e dias em que não queria sair de casa para nada. E era durante os episódios em que bancava a esfuziante que eu mais me enganava. E os outros acreditavam. E eu confiava no que eles viam.
Gostava de ouvir que estava bem, talvez eles conseguissem ver nitidamente o que eu não conseguia sentir. Em alguns momentos pensei que pudesse estar fingindo. Não estava. Estava tentando me arrancar daquele buraco. Mas entendi que a felicidade que eu transmitia era só a tarja preta que anestesiava a tristeza.
Funcionava. Cheguei a interromper a medicação, tudo com acompanhamento médico, porque me sentia melhor. Achava que tinha uma parte naquele processo que dependia apenas de vontade. Não adianta só querer. Levei um tombo. Mas foi dessa vez que entendi que dá para conviver pacificamente com a doença, embora os sintomas estejam apenas adormecidos.
Quase tudo que vivi naquele período parece meio nublado agora. Mesmo as lembranças dos bons momentos nem sempre têm a nitidez que a felicidade carimba em nossa memória. O cérebro não conseguia assimilar.
Não sei o que a depressão causa nos outros. Em mim, era como se a doença sufocasse no peito a pessoa alegre, divertida e bem-humorada que sempre fui. Era como se, por mais que eu tentasse, não conseguisse sentir prazer em pequenas coisas ou euforia nos grandes acontecimentos. Me olhava no espelho e não me enxergava. Passei um ano e meio da vida chapada de tristeza.
Deixei de fazer muitas coisas que gostava. O único prazer que eu tinha era afundar no sofá e beber. Beber até anestesiar os sentimentos e dormir noites intermináveis de sono. Tenho sorte. Muita gente não tem. Tornam-se alcoólatras, viciados em drogas, tiram a própria vida, tudo para fugir da dor de sentir-se triste.
Pessoas passam a vida lutando diariamente contra a depressão, algumas conseguem colocar a cabeça para fora da lama e respirar. Não sei o que funcionou no meu caso. Mas quando isso aconteceu, percebi que a doença tinha causado transformações em mim, inclusive fisicamente. Foi como se eu estivesse ficando sóbria aos poucos e me dando conta do estrago que ela tinha feito. E a ressaca é grande. Mas ela passa.
Imagine que você consegue recuperar o seu HD inteiro e ele te ajuda a lembrar quem você é, te mostra os caminhos que costumava fazer para sentir-se feliz. Dançar, correr, comer ovos mexidos no café da manhã, fazer piadas bobas, soltar o verbo. Você consegue se lembrar de como era antes da doença, que nem sempre teve que lidar com o desequilíbrio causado por suas emoções. Foi o que aconteceu comigo. E eu me agarrei a isso. E todos os dias faço um baita esforço para não soltar essa corda.
Hoje, sinto-me sóbria, e não porque não tomo mais remédios, mas porque voltei a experimentar sentimentos na intensidade que eles têm de fato. Fico feliz, alegre, decepcionada, animada e triste também. Faz parte da vida experimentar disso tudo no dia a dia. Já a depressão é um mergulho profundo na tristeza, mas nem sempre ela parece, aos olhos de quem está de fora, tão triste e devastadora quanto pode ser.


Texto de Mariliz Pereira Jorge, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cada país tem a desigualdade que escolhe?

A desigualdade voltou a ganhar destaque recentemente no Brasil, a partir de novos dados que indicam uma estabilidade da concentração de renda dos mais ricos, desde 2006.
Vários especialistas já se manifestaram sobre o assunto, apontando que esse resultado decorre da ampliação dos estudos para incluir dados tributários, que melhor capturam a renda do capital no topo da pirâmide.
De fato, a queda da desigualdade registrada pelo IBGE é mais focada na renda do trabalho, em que se verifica uma melhora da distribuição, até 2011, por qualquer medida utilizada.
Quando se incluem dados tributários na análise, o resultado ainda é um aumento da parcela de renda dos mais pobres, mas com estabilidade da parcela dos mais ricos.
Em outras palavras, a classe média perdeu participação no total de renda e isso ajuda a entender parte do conflito político recente.
Em um texto de 2016, Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, apontou que a desigualdade é uma escolha política, não um resultado de forças externas à sociedade.
Palma analisou a distribuição pessoal de renda em 129 países, dividindo cada sociedade em três grupos: mais pobres (40% na base da pirâmide), classe média (os 50% seguintes) e os ricos (os 10% no topo).
Segundo Palma, há uma regularidade na maioria dos casos: a classe média detém aproximadamente 52% da renda pessoal, independentemente do grau de desigualdade do país em questão.
Onde a desigualdade é alta, os ricos têm uma parcela elevada do total da renda, enquanto os pobres têm uma parcela reduzida. Onde a desigualdade é baixa, os ricos têm uma parcela menor, e os pobres, uma parcela maior do bolo. Nos dois casos, a classe média tem cerca de 52% da renda pessoal.
Minha interpretação dos resultados de Palma é que, onde a desigualdade é alta, a classe média aceita que os ricos sejam muito ricos desde que os pobres sejam muito pobres. Já onde a desigualdade é baixa, a classe média aceita que os pobres sejam menos pobres, desde que os ricos não sejam tão ricos.
A "tolerância à desigualdade" de cada país reflete, portanto, sua preferência de renda relativa. Onde a desigualdade é alta, caso do Brasil, a classe média tolera a riqueza excessiva desde que sua renda também seja excessiva em relação aos mais pobres.
Como apontou o sociólogo Jessé de Souza, essa escolha (um resquício do período de escravidão) pode explicar mais de nossa história do que a hipótese do patrimonialismo, tão em voga ultimamente.
Esse é um tema a ser aprofundado, sobretudo porque a recente perda relativa da classe média contribuiu para o crescimento de uma oposição virulenta a governos de esquerda e políticas de inclusão social.
Essa oposição geralmente se agrupa sob a bandeira politicamente correta de combate à corrupção, mas seu crescimento também tende a fazer os pobres voltarem a ser mais pobres via apoio a uma agenda regressiva de política econômica.
A alternativa progressiva seria fazer com que os ricos contribuam mais para a redução da desigualdade. Essa foi uma falha dos governos do PT. Demoramos muito para enfrentar o problema. Corrigir esse erro é o caminho a seguir, além de ser perfeitamente compatível com o combate à corrupção.
Mas temo que isso só acontecerá quando a desigualdade subir para um nível que ameace a sobrevivência da classe média.
NELSON BARBOSA, doutor pela New School for Social Research, é professor da Escola de Economia de São Paulo (FGV) e da UnB e pesquisador do Ibre. Foi ministro da Fazenda e do Planejamento (governo Dilma). Escreve às sextas-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.


Texto de Nelson Barbosa, na Folha de São Paulo