quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Aos poucos e discretamente, acabou sonho palestino de Estado próprio

Passo a passo, sem que explodam manchetes a respeito, acabou o sonho palestino de ter Estado próprio.
O mais recente prego no caixão dessa já remota esperança veio na terça (16), quando Donald Trump anunciou que cortou pela metade a verba à agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos.
Cria "a mais severa crise de financiamento na história da agência", segundo o porta-voz da organização, Chris Gunness.
Ela cuida de cerca de 5 milhões de refugiados palestinos, atendendo saúde, educação e alimentação. Logo, "cortar verba para comida e educação para refugiados vulneráveis não proporciona um duradouro e abrangente processo de paz", comentou o governo palestino.
Antes do corte, outro prego importante já havia sido martelado no caixão do diálogo: no fim do ano, o Comitê Central do Likud, principal partido governista de Israel, votara para estender a jurisdição de Israel aos assentamentos na Cisjordânia.
"É um prelúdio para a anexação", analisou Steven Cook, especialista em Oriente Médio e África do Council on Foreign Relations.
De fato, se a Cisjordânia é um território que a comunidade internacional reservou para os palestinos, como parte de seu futuro Estado, não faz sentido que valha para ela a legislação israelense. A menos que Israel pretenda anexá-la.
A análise de Cook coincide com informações que os palestinos repassam a jornalistas, depois de recebê-las de interlocutores egípcios e sauditas: o plano de paz que Trump diz repetidamente que está preparando incluiria criar cantões desconectados na Cisjordânia, com um governo supramunicipal e atribuir a Abu Dis, nos confins de Jerusalém, o caráter de capital palestina.
Esse pedaço de território poderia, ainda por cima, "ser vinculado a uma Jordânia vulnerável e que não o quer", na versão de David Gardner no jornal britânico "Financial Times" desta quarta-feira (17).
Morreria, pois, o sonho palestino de um Estado próprio que, porém, tem o respaldo da legalidade internacional: em 1948, a ONU determinou a criação de dois Estados na área, Israel e o que seria a Palestina.
É verdade que os países árabes não aceitaram Israel, foram à guerra e perderam. Esse fato não muda a determinação da ONU, seguidamente reafirmada, de dois Estados.
O problema é que nenhum país tem força suficiente para impor a Israel a solução internacionalmente reconhecida. Os EUA desde sempre —e mais ainda com Trump— sempre respaldaram Israel, ao passo que os palestinos recebem apoio apenas retórico do mundo árabe e do Ocidente em geral.
Depois que Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, resolveu decretar que os EUA estão fora do jogo no processo de paz, que, aliás, é um cadáver insepulto.
Vale, pois, o comentário para o "Guardian" de Ian Black (Centro do Oriente Médio da London School of Economics): "A solução dos dois Estados para o conflito com Israel tem tido um longo desfalecimento. Mas o discurso de Abbas poderá ser visto algum dia como o seu epitáfio".


Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo

domingo, 14 de janeiro de 2018

O desespero e a graça

No escritório de Carlos Heitor Cony, perto do computador, havia duas pequenas reproduções de Goya. Uma correspondia à fase mais atormentada do pintor: embrulhadas em roupas negras, bruxas se acocoravam contra um céu de chumbo.
Ao lado, uma cena galante de arlequins e cortesãs, num parque ensolarado e verde-claro, fazia lembrar que o artista espanhol tivera seu fastígio em pleno século 18, antes que a brutalidade das invasões napoleônicas modificasse sua visão de mundo.
O primeiro quadro, dizia ele, "são meus romances". O segundo, "as crônicas".
De certo modo, Cony aceitava a opinião tradicional, que associa a crônica a um texto sorridente, descompromissado e ligeiro.
morte de Carlos Heitor Cony priva o país, e a Folha, de um mestre absoluto do gênero –e de um escritor cujo profissionalismo jamais permitiria infringir abertamente as regras prescritas pela convenção.
Seus textos para o jornal foram, portanto, deliciosos de ler, arejados, com um leve perfume de poesia que ele dosava à perfeição.
Mas acontecia de as sombras grotescas das feiticeiras de Goya cruzarem sua memória no meio de uma frase –para serem afastadas num gesto quase que de mau humor, com o qual Cony recuperava a graça exigida pelo gênero jornalístico.
Depois de deixar o seminário, ele se impregnou da filosofia existencialista. Sartre e Camus abriram sua sensibilidade para o absurdo e para a absoluta solidão do indivíduo nas suas escolhas morais.
Pego, meio ao acaso, uma crônica de Cony. Chama-se "Acidente de percurso da química e da gula". Começa assim:
"Não sei bem por que, mas eram considerados primos. Em algum ponto havia uma bifurcação genética e os Almeida da Silva tinham alguma coisa a ver com os Moraes, nossa família materna."
O registro, claro, é o da memória, cotidiana e doméstica. Não se trata, contudo, de recuperar o passado. O narrador não se lembra bem do parentesco; na verdade, nunca soube –e sugere que isso não tem importância.
Surge então o detalhe, este sim memorável: naquele ramo da família havia seis mulheres. "Casaram-se no devido tempo, um dos maridos mexia com produtos químicos, daí que todos eles receberam a classificação coletiva de 'Químicos'".
Apesar de característico, o traço mantém certa imprecisão: "no devido tempo" (quando?), "um dos maridos" (qual?), "mexia" (vendia? Fabricava?), "produtos químicos" (de que tipo?).
Pouco importa. O fato de serem chamados de "químicos" não interfere em nada no desenvolvimento da história, que se concentra no fato de que esses parentes eram "vorazes".
"A especialidade deles", continua Cony, "era frequentar festas em que havia bufê." O líder do grupo, chamado Eurico, vivia da renda de "cinco casas no Cachambi". Dormia "até tarde e, à tarde" (note-se o falso descuido ao repetir a palavra), "gostava de Vicente Celestino e empadinhas de camarão".
Nada disso, parece dizer Cony, tem importância ou razão de ser. Vivemos num universo em que as coisas são simplesmente assim. Poderiam ser quatro casas, poderiam ser em outro bairro, poderia ser outro cantor, poderia ser outro salgadinho. Nada disso modifica nada.
A turma fica sabendo de um casamento rico, mas o convite por escrito não veio. A festa seria na casa de um "comerciante de queijos" na rua Sacadura Cabral. Ou seria em outra rua? Talvez a Gago Coutinho?
Naquele mundo arbitrário do texto, em que um detalhe poderia ser outro qualquer, eis que a imprecisão, a falta de motivos para que algo seja o que é, contamina os próprios personagens –também eles se confundem no específico, trocam uma coisa por outra qualquer.
Terminam parando no lugar errado –e batem à porta (outro acaso inexplicável) de um poeta famoso nos anos sessenta, menos pelo talento do que pelo engajamento político: Thiago de Mello, que organizara uma recepção a outro poeta, um chileno chamado Juvêncio Valle.
A noite transcorre com o chileno recitando versos sobre "a libertação dos povos da América Latina e dos povos afro-asiáticos". Quando acaba o último poema, "Thiago de Mello mandou buscar umas pizzas numa padaria no Largo do Machado".
E a crônica termina nessa frase, como se nenhuma conclusão fosse possível.
Cony é um artista do anticlímax.
O senso lírico da desimportância de todas as coisas se traduz, para Cony, em absurdo, em falta de sentido. Sua ironia não é doce, como em tantos outros cronistas: é no desespero que ele encontrou a sua graça.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, a respeito de Carlos Heitor Cony, recentemente falecido. 

'Consciência do que fazia era absoluta', diz Janio de Freitas sobre amigo Cony

Aberta a grande porta, o saguão do seminário foi invadido pela rumba "Siboney", mandada do outro lado da rua pelo comitê de um candidato à Presidência. Mas o som do mundo a recepcionar o já ex-seminarista também podia ser a marchinha carnavalesca "Jardineira". Ou o samba "Implorar". Ou outro. A depender da ocasião em que a cena era descrita por seu protagonista.
Em 1945 também não houve campanha presidencial, a ditadura de Getúlio só foi derrubada em outubro. Datas, situações, fatos podiam ficar sob a rubrica "rigor histórico". Nenhuma memória valeria a imaginação de um pormenor ou de um fato capazes de dar dramaticidade, sabor original, um toque literário que fosse, à realidade insatisfatória. Conter o impulso ficcionista, quando obrigatório fazê-lo, parecia revoltante a Cony, uma repressão ao privilégio da sua fertilidade imaginosa.
Há uma diferença essencial a ser observada, sempre, nas rebeldias ficcionais de Cony contra a memória dos fatos e mesmo contra fatos. Cony não inventava, no sentido de uma elaboração. Sua fonte não era a má-fé. O fictício lhe ocorria, jorrava, nada mais que isso, e ganhava a sua certeza com uma convicção capaz até de provocar atritos e mágoas.
Em crônica na Folha, um momento de nostalgia levou-o a falar das saídas juntos do "Correio da Manhã", sempre alta noite, dele, Antonio Callado, Luiz Alberto Bahia e eu. Deixei passar, mas logo fui indagado sobre aquelas noites e companhias, e pressenti mais um equívoco a caminho. O quarteto podia ser um trio: nunca trabalhei com Callado e Bahia.
Imprecisão irrelevante, não era o caso de correção. Bastaria informá-lo. Mas foi impossível convencer Cony de que me lembrava bem de onde trabalhei e em que época. Sua certeza de minha presença incluía, além de conversas, caronas no seu carro até minha casa. Nada mais a discutir. Nunca o vi aceitar com naturalidade uma observação, de quem quer que fosse, sobre divergências suas com a memória alheia. Ficção e realidade eram uma coisa só.
Nem por isso soube que guardasse por muito tempo alguma zanga da sua sensibilidade. Exceto, talvez, pelo que foi ou seria o boicote ao seu romance "Pessach".

Mas, no caso, o ressentimento não era de pessoas determinadas e, sim, do Partido Comunista. Comunistas ligados à cultura negaram o boicote. Ainda, porém, que Cony pudesse ter uma visão desproporcional de parte da história, tinha razão quanto à discriminação aplicada ao seu livro, publicado paralelamente ao "Quarup" de Callado.
O episódio com "Pessach" mostrou a muitos um Cony desconhecido. Emergia ali, do Cony ameno, bem-humorado, ótimo de conversa, um Cony áspero, rijo, inabordável. Grosseiro até, como o próprio caso era. E muito emocional.
Fui dos que se enganaram com o seu temperamento, embora anos antes. Indefinido politicamente, Cony me pareceu o mais adequado para uma seção, "Diálogo", que decidi lançar no "Correio da Manhã", para diálogo mesmo com leitores missivistas. Eram tempos de radicalidade política muito maior que a atual, embora sem o ódio público do país embrutecido de hoje em dia.
Errei na escolha. As respostas para a seção inaugural eram de violência assustadora. Jornal não publicava carta de leitor fascistoide insultando jornalista gratuitamente nem achava que jornalista tem que engolir insulto. Foram dias de seção a ser reescrita e de cuidados nas relações. Comecei a desvendar ali uma violência refreada que me explicava algo para mim intrigante na literatura do escritor Cony de até então: a violência subjacente.
A mesma carga esteve, sob outra forma e outro propósito, nos artigos de Cony seguintes ao golpe de 64. Ainda há quem atribua esses escritos a uma dose descontrolada de irresponsabilidade do autor. Estive muitas vezes com Cony naqueles dias, conversando sobre artigos escritos e a escrever. Sua consciência do que fazia, do que sentia necessidade pessoal de fazer, era absoluta. E, enfim, mais forte do que a impulsão do ficcionista.
Os anos que passou, como dizia, sem escrever, na verdade foram sem publicar sua literatura. Certa vez o admitiu, para nunca mais. Avião o incomodava, e suponho que por isso falasse muito em nossas idas e vindas de reuniões em São Paulo.
Tinha muita coisa escrita, sim, e parte dela começava a ser aproveitada —como se pode notar em trechos de um ou outro romance da sua "volta". Mas esse não era um assunto de que gostasse. Parecia preferir conversas sobre outros autores. Aos novos, aliás, tratava com farta generosidade.
Em toda a história da Academia Brasileira de Letras, Cony foi o único autor de quatro discursos de admissão —três de posse, incluída a do próprio, e um de recepção. Nem seus colegas de fardão sabem disso, a não ser os que só entraram com o nome. 


Janio de Freitas, na Folha de São Paulo, a respeito do recentemente falecido colega Carlos Heitor Cony.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O mundo está perdido: até a mudança faz o elogio da mesmice

O respeito às tradições, sempre defendido pelo pensamento conservador, seria mais simples se as tradições não fossem tão arbitrárias, contraditórias e passageiras.
Muita gente ainda acha que homem nasce homem, mulher nasce mulher e ponto final –qualquer mudança nesse programa é invencionice, coisa de quem defende a "ideologia de gênero" e pretende "ensinar o homossexualismo".
É curioso notar que, em tempos mais ordeiros, como a época vitoriana, havia o costume de tirar fotografia de garotos pequenos com roupinha de mulher.
Reconheço que terá sido mais uma moda que uma tradição, mas em todo caso a ideia deveria causar arrepios numa sociedade em que os papéis masculino e feminino se demarcavam com nitidez.
Imagino que a criança pequena (até uns dois ou três anos) fosse considerada mais ou menos sem sexo; o primeiro corte de cabelo, eliminando os clássicos cachinhos, talvez funcionasse como um ritual de passagem.
Com meu pai, nascido em 1915, fizeram um retrato desses, de vestidinho rendado. Ficava em cima de um aparador, logo na entrada de casa, sem que ninguém me explicasse aquele estranho travestismo infantil.
Não sei que consequências isso terá tido na história da minha sexualidade. Aquilo era o que era, e não se questionava demais a influência dos "maus exemplos" sobre a masculinidade, ou a falta dela, na psicologia de quem quer que seja.
Um problema do conservadorismo é o de idealizar os tempos antigos sem conhecê-los realmente. Defende-se a permanência de velhos costumes, mas isso é mais difícil do que se imagina.
É que os velhos costumes perdem uma coisa essencial quando se torna necessário defendê-los. Perdem a inocência que tinham. Existiam sem porquê.
Na medida em que se impõe uma argumentação, estúpida ou razoável, em sua defesa, o ambiente já foi, por assim dizer, "corrompido". Já está em curso o questionamento, a dúvida, a contestação.
Como consequência, o conservador fica em desvantagem desde o início. Passa a jogar segundo regras que não eram as da tradição. Pois a tradição, em seu vigor e eficácia plena, existia sem debate. Entrar no debate já é ser mais moderno do que se gostaria.
Progressistas ou conservadores, de todo modo, chegam muitas vezes atrasados. Modas, costumes e instituições parecem surgir e modificar-se como que sozinhas, debaixo de todos os narizes.
Desapareceu, assim, a coisa de vestir meninos com vestidinho de renda. Vai desaparecendo (espero) o sistema de vestir irmãos gêmeos com roupas iguais.
Sempre achei "perigosíssimo" esse costume. Se fosse pai num caso desses, tentaria sempre diferenciar ao máximo a Jéssica da Jennifer, o Paulo Mário do Mário Paulo, e o Gilbert do Dilbert.
Antigamente, parece que a semelhança dos gêmeos deveria ser mais celebrada do que vencida. A individualidade talvez contasse menos do que a mágica duplicação dos filhos sob a autoridade familiar.
Enquanto isso, tenho visto nestes dias de fim de ano –em que minha frequência aos shoppings se intensifica– um fenômeno paralelo: o das mães que parecem irmãs das filhas.
Por um lado, isso é bom. Significa que as mulheres de 40 anos ou mais estão com aparência cada vez mais jovem, graças à ciência cosmética e ao esporte. Tenho medo de que, ao mesmo tempo, as meninas estejam cada vez mais velhas, aparentando 20 anos quando têm apenas 11.
Nada é estável nesse campo; durante séculos, meninas de 14 ou 15 anos se casavam e viravam mães sem que ninguém se escandalizasse com a pedofilia.
É inegável, em todo caso, que o combate à pedofilia seja paralelo a uma crescente dissolução das diferenças de comportamento, informação e vestimenta entre quem tem 12 ou 30 anos.
Agora, vi em algumas vitrines de shopping um sinal de que as coisas vão longe demais. Agora há roupas idênticas à venda, para que mães e filhas pequenas saiam às ruas como as gêmeas de antigamente.
Será que está em curso uma ideologia excessivamente igualitária, pressupondo que mães e filhas sejam equivalentes em poder, em direitos e em autoridade? Não, isso seria insustentável.
Talvez o contrário: a mãe quer manter seus privilégios de filha, dizer-lhe "não chateia, vou brincar e dormir tarde", quando a criança impõe um mínimo de ordem e disciplina.
Ou então, quem sabe, as duas brincam de boneca –criando cada qual sua imagem duplicada. Um narcisismo recíproco, portanto. Senhores e senhoras, o mundo está perdido: até a mudança faz o elogio da mesmice. 

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Não seria mais honesta uma educação que credita ao desejo o erro inevitável?

"Invasões Bárbaras" é, entre outras coisas, o nome de um filme do cineasta canadense Denys Arcand.
Nele, vemos uma singular história de reconciliação entre pai e filho. No momento final de sua doença e morte, um professor universitário, interpretado por Rémy Girard, procura se reaproximar de seus amigos e filho.
Rémy fora um professor que vivera o maio de 1968, a liberação posterior de costumes, que tivera sonhos de revolucionar a vida e o mundo, mas que, ao final, percebe quão pouco realmente realizou.
Seu tom é melancólico, baseado nas frases que versam sobre "o que poderia ter sido".
Sébastien é o nome de seu filho, com o qual ele tem poucas relações. Uma das razões da distância é a diferença em seus modos de vida.
Contrariamente ao pai, Sébastien é alguém que soube se integrar com sucesso. Alto funcionário de uma companhia que vende petróleo, noivo de um mulher pronta para ser a esposa perfeita, ele vê a vida errática e excessiva do pai como uma inadaptação infantil.
Os papéis tradicionais parecem estar trocados nesta narrativa em que as instâncias normativas estão nas gerações mais jovens. O filme será então a história de uma aproximação, mas uma aproximação que, à sua maneira, fornece uma resposta possível à questão sobre o que ainda pode ser um pai.
A esse respeito, se me permitirem o uso da primeira pessoa, lembro-me de conhecer um jovem que acabara de ser pai, no Cairo. Sabendo que eu tinha uma filha, ele se pôs a falar de como imaginava educar seu filho nos mínimos detalhes, procurando controlar e selecionar aquilo que julgava ser formador ou não.
Ele imaginava um espaço irretocável de educação. A minha única pergunta foi: "Mas o que você fará com seus erros?".
Os "erros" em questão não se referiam apenas às escolhas erradas, mas principalmente às errâncias, ou seja, aos momentos em que, por confusão ou cegueira, nós mesmos acabamos traindo o que não deveria ser traído, não somos dignos do lugar que ocupávamos, do amor que recebemos.
Errâncias estas motivadas por cálculos errados, por sintomas e divisões com os quais nunca soubemos lidar, por crenças que depois se demonstrarão ilusórias.
Não seria uma educação mais honesta aquela que faz sujeitos perceberem que o desejo nos leva, muitas vezes, a entrar em errâncias que são inevitáveis, que nos leva a lidar com um campo confuso com o qual, muitas vezes, falhamos constantemente em lidar?
Houve época em que os pais acreditavam que deveriam aparecer aos filhos como força disciplinar e sublimada. Um esteio positivo de identificação. Eles tinham então que lidar com as resistências à adaptação, com a experiência de repressão da qual eram veículos.
Mas talvez mais difícil do que isso é aparecer como aquele que mostra como há um campo de insegurança na vida assim que nos perguntamos sobre o desejo. Um campo que certamente nos levará a errar quando procuramos interpretar a injunção moral de não ceder em seu desejo. Este reconhecimento pode ser o embrião para uma forma outra de solidariedade.
Em "Invasões Bárbaras", a aproximação entre pai e filho se dá quando o filho entra em dúvida a respeito de suas escolhas, ou seja, quando sua integração perfeita parece a ponto de entrar em colapso.
Pois talvez nesse momento ele possa desenvolver alguma forma de solidariedade com os que tropeçam e caem, reconhecer a humanidade dos que se confundem. Não para repetir os impasses do pai, mas para ser capaz de separar a intenção da realização, a inquietude do limite e, assim, traçar um outro caminho.
Um caminho que, como sempre, será a ressonância dos caminhos que nos constituíram, da história dos desejos desejados antes de nós, mas que podem encontrar uma forma mais refletida e menos dolorosa.
Que seja o pai o veículo de tal reconhecimento, eis algo que não seria sem relações com uma certa curiosidade bibliográfica de um dos filósofos que nos aparece com o esteio da razão moderna, a saber, Descartes. Em dado momento, Descartes declara ter se apaixonado na juventude por uma garota manca.
Lembro-me de um professor que se servia disso para dizer que, no fundo, Descartes nunca deixara de tentar lidar com o que manca, com os fundamentos que, mesmo nos sustentando, têm sempre algo que manca. Pois esta era, afinal, uma astúcia da razão: nos fazer amar o que manca.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Triste Brasil

O IBGE entregou o jogo: um em cada quatro brasileiros vive na miséria. Dá em torno de 50 milhões de pessoas. Dá quantos países europeus? Três quartos dos miseráveis brasileiros são negros ou pardos. Mais de 13 milhões vivem abaixo da linha da miséria. Chafurdam. Pode um país dar certo assim? Claro que não. Nem sonhando. Falemos claramente: a elite brasileira é burra, insensível, cínica e ultraconservadora. Nada faz para mudar essa situação. Só pensa em manter o seu quartel. Acha que se resolve desigualdade com repressão.
Sejamos ainda mais diretos: O Brasil é racista até a medula. Ponto.
Uma das mais contundentes expressões do irrealismo brasileiro é dizer que a população não bate panelas contra Michel Temer por estar cansada, desiludida, anestesiada. As panelas não batem porque a corrupção do governo Temer não incomoda tanto quanto incomodava a do PT. No Brasil, até a corrupção é seletiva. Tem corrupção e corrupção. O corrupto chega nas altas instâncias e diz: “Você sabe com que ladrão está falando? E sai voando. Com Temer a turma dos camarotes vai se ajeitar nas poltronas de grife e continuar assistindo ao triste espetáculo da miséria nacional. Que importa a esse pessoal sofisticado se negros patinam na pobreza? Temer é herói nacional para o mercado, que ansiava pela reforma trabalhista, mesmo se ela está produzindo demissões em cascata em alguns setores. Era esse mesmo o objetivo.
Outra pesquisa, comandada pelo economista francês Thomas Piketty, mostra que o Brasil é o primeiro país do mundo em crescimento da desigualdade, o que mais concentra riqueza no 1% mais rico. O Brasil é uma máquina de perversidade, injustiça, crueldade e exclusão. A elite viaja de primeira classe ou de classe executiva e se encanta com o mundo desenvolvido, chegando a cometer a excentricidade de andar de metrô nas capitais europeias, mas não quer pagar o preço para ter em casa a qualidade de vida do chamado primeiro mundo. Quer ter padrão sueco pagando menos impostos e mantendo o nível escravista de desigualdade. Por aqui, deputado que defende ladrão público e notório é recompensado com cargo de ministro. Somos um lugar muito especial.
A corrupção é um grave problema brasileiro. Uma chaga. Um câncer. Maldita sina de uma nação com políticos e empresários desonestos. Mas a corrupção não é o nosso maior problema. A violência é outro problema gravíssimo. Apesar de devastadora, a violência tampouco é o nosso maior gargalo. Qual é então o nosso maior problema? A desigualdade. Tudo vem dela: incapacidade de controlar a corrupção, violência, miséria, subdesenvolvimento, jeitinho, cinismo e golpismo. A reforma da Previdência vai tirar milhões da miséria? Recebe visita do Papai Noel quem acredita nisso. O problema do Brasil também não é o populismo. É o elitismo. Temos uma elite do século XIX, pré-abolição, ociosa e convencida de que escraviza pelo bem do escravizado. Simples.

Do blog do Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tipo assim, energia, meu

Escrevo para pedir sua ajuda. Sou uma mulher de quase 40 anos, suficientemente cínica e com ojeriza a papinhos furados recheados de frases feitas ou expressões que jovens muito felizes e gritantes usariam em um luau. No entanto, sofro de incontrolável apego à palavra "energia". Lanço-a por aí em almoços informais, reuniões de trabalho e feiras literárias. Depois me contorço em autodescaso. Sou uma farsa! Faço minha carinha de empáfia pra distrair as pessoas da obviedade de que sou uma idiota, mas me desnudo no exato segundo em que, sem controle, entregue ao vício, menciono a palavra energia, querendo alcançar o rabo de alguma metafísica chula trazida por um reles ventinho de fim de tarde.
Cometo tal futilidade sempre que quero ir além da minha ladainha autocentrada e abraçar sentimentos muito profundos, curiosos e misteriosos. Infelizmente, "Não sou religiosa, mas acredito numa energia boa que chamo de Deus" virou frase de lanchonete de academia. Virou frase de blogueira especializada em blush cor de bronzeado mediterrâneo. Mas, poxa, eu talvez tenha inventado esse pensamento. Eu era feliz em tê-lo na minha lista de conclusões especiais. Quando pensei isso, na infância, me achei realmente esperta. Desde então chamo de fé essa coisinha bacana, essa vibe boa... essa energia do bem. Socorro! Pareço uma anta filosofando numa doceria de shopping. Enfim, ou você me ensina um substituto cabeça, um sinônimo mais aceito nas rodinhas intelectuais, ou minha carreira estará acabada!
Outro exemplo: pessoas que nos tratam super bem, são queridas, bem intencionadas, mas quando chegam perto, é como se os pontinhos de arrepios de nossa pele fossem milhares de plantinhas floridas e microscópicas que inflam em pavor, infartam, secam e se esvaem em súbita e prematura morte. A gente sente a paulada atrás do joelho, percebe a aura cor de céu do último dia do universo. É a energia da pessoa que, putz, cara, é bem barra pesada.
Já outros coleguinhas nem vão com nossa cara, tão sempre lidando com a realidade com a feição simpaticíssima de quem acabou de cheirar um sachê de bosta. A ruguinha eterna abaixo da boca desenhada pelo constante nojinho por outrem. Mas, vai entender, rola um oxigênio queridão quando ele aparece. Se bobs, rola até um tesãozinho.
Nunca vou esquecer quando, na longínqua época que eu ia a festas que não estava a fim de ir, fui a um aniversário no Baixo Augusta. Antes que eu saísse, meu perfume novinho explodiu, espalhando uma indecente quantidade de dólares pelo banheiro. Na hora pensei "energia ruim, não saia de casa". No caminho, me perdi, a rádio só tocava musica triste, meu celular apagou e nem estava sem bateria. Cheguei no bar e minha pressão caiu, eu não parava de bocejar, minha nuca parecia pesar mil quilos. Não suportei mais e saí correndo. No dia seguinte, amigos me contaram que o lugar foi assaltado e teve choradeira, polícia, troca de tiros. Passei os dez anos seguintes dizendo a todos que eu transo um lance fortíssimo com a "energia dos lugares". Quem vai discordar?
Preciso dar um basta nisso. Já lancei livro por editora de respeito, a última reforma da minha casa me alçou ao patamar dos adultos com bom gosto e, semana passada, até o canal Arte 1 quis falar comigo. Resumindo: rolou pra mim, galera. Não posso estragar tudo agora, apenas porque sou uma junkie verbal, uma adicta, uma dependente. Conto com você.


Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

A guerra civil como forma de governo

Há dias um juiz negou o pedido de uma ex-funcionária do banco Itaú para processar seu antigo empregador por fazê-la trabalhar em horas extras não pagas, além de praticar assédio, obrigá-la a acúmulo de função e desrespeitar outros direitos trabalhistas elementares.
No entanto, baseado na nova lei trabalhista, o juiz em questão resolveu obrigar a trabalhadora a pagar os custos dos advogados do banco, ou seja, R$ 67 mil. Ele deve esperar, com isto, criar uma jurisprudência que desestimule de vez trabalhadores a acreditar terem o direito de usar a Justiça para se defender de seus empregadores.
Na mesma semana que ficamos sabendo desta nova modalidade de Justiça, uma das maiores empresas nacionais de expropriação de alunos, uma empresa que não teme macular o termo "universidade", demitiu sumariamente 1.200 professores. Sem se preocupar minimamente com o impacto de tal decisão no ensino oferecido aos alunos, nas pesquisas desenvolvidas e orientações, a dita empresa de expropriação estudantil espera aproveitar-se das nova legislação trabalhista para oferecer salários ainda mais aviltantes a professores atemorizados em regime precário.
Esses dois fatos não são fenômenos isolados, mas expressam de forma cristalina a razão pela qual atualmente existe governo no Brasil.
Há governo no Brasil para levar ao extremo uma guerra civil não declarada contra aqueles que vivem de salários, para submetê-los a um regime de medo e insegurança social absoluta a fim de quebrar qualquer ímpeto possível de mudança nos padrões de circulação do dinheiro e das riquezas. Por isto, o paradigma para entender o Brasil atual não é o paradigma do governo, mas o paradigma da guerra.
Ele começou com o uso da instabilidade política para insuflar a crise econômica por meio de pautas-bombas no Congresso, de assalto aos cofres públicos por meio de aumentos aviltantes ao Poder Judiciário, de queda completa da credibilidade internacional do Brasil por meio de um governo de presidentes indiciados. Uma crise do tamanho da que vemos atualmente não foi resultado apenas de descaminhos econômicos. Colaborou de forma decisiva uma dose maciça de produção política. Pois em situação de crise, o paradigma da guerra civil pode reinar.
Mas para que esta guerra avance a ponto de levar a população à capitulação faz-se necessário o golpe final da reforma previdenciária, que deve ser dado na semana que vem. É digno de um cinismo diabólico ver a casta de privilegiados que passa incólume da crise econômica atual (representantes do sistema bancário-financeiro, grandes empresários, políticos com aposentadorias garantidas, juízes) tentar vender à população a necessidade de destruir o sistema previdenciário brasileiro sob a capa exatamente do "combate aos privilégios".
A não ser que, de agora em diante, o simples ato de aposentar-se seja descrito, na novilíngua neoliberal, como "privilégio".
No entanto, "privilégio" não foi o termo usado para a decisão da Câmara de conceder isenção fiscal a gigantes petrolíferos que explorarão o pré-sal (MP 795/2017) impondo perdas de até R$ 1 trilhão em 25 anos. O governo aponta que tal isenção gerará bilhões para o país.
Deve ser um processo de geração da mesma natureza dos empregos que o mesmo governo prometia com a aprovação da reforma trabalhista. Algo cuja existência é da mesma ordem do círculo quadrado, do unicórnio e da honestidade do presidente Michel Temer. Se democracia houvesse em nossas terras, o fato de a maioria esmagadora da população preferir candidatos fora do horizonte de sustentação do "governo" atual seria elemento fundamental impedir sua guerra travestida de política econômica.
Como democracia aqui é só uma fachada já bastante puída e degradada, o "governo" de menor aprovação popular do mundo, que inveja até mesmo os índices de aprovação de Nicolás Maduro, pode usar todo seu aparato jurídico-policial para quebrar o ímpeto de defesa da classe trabalhadora. O que passa por prisões arbitrárias, "condições coercitivas" surreais, multas milionárias para sindicatos que procuram exercer o direito de greve, ameaças de golpe militar, entre outros.
Melhor seria que a população brasileira entendesse de vez que estamos em uma forma de guerra civil de baixo impacto no qual Estado brasileiro mostra claramente sua face de instância beligerante.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

sábado, 16 de dezembro de 2017

Nas redes, ninguém tem a menor chance de convencer ninguém

É bem possível que você tenha lido "O Código da Vinci", de Dan Brown. Em 2015, o livro (que é de 2003) tinha vendido mais de 80 milhões de exemplares mundo afora e estava entre as obras literárias mais vendidas de todos os tempos.
Também é possível que você tenha visto o filme homônimo, de Ron Howard, com Tom Hanks no papel de R. Langdon, professor de "simbologia" (disciplina que não existe) na Universidade Harvard.
Ainda hoje, em Milão, é impossível visitar a "Última Ceia" sem que haja um turista tentando confirmar a interpretação do afresco proposta no livro e, no fundo, convencido que há, sim, um complô da Igreja para esconder que Jesus tinha se casado e tido filhos com Maria Madalena, sua discípula preferida.
Dan Brown acredita firme no poder da razão e das palavras –talvez essa seja uma das razões de seu sucesso. Ele acredita que o saber de Langdon pode resolver qualquer enigma. E, mais importante, ele acredita que a revelação de um segredo poderia mudar o mundo.
No "Código", há religiosos dispostos a matar para que não seja revelado o segredo do amor de Cristo por Madalena. Ora, essa revelação, no máximo, forçaria a Igreja a ordenar mulheres e a acabar com o celibato dos padres. Mas será que ela abalaria mesmo a fé de alguém?
No novo livro de Dan Brown, "Origem", ed. Arqueiro (menciono a premissa da história, sem spoilers), um cientista fará uma revelação incontestável que, se não for impedida, acabará com qualquer fé religiosa.
Adoraria acreditar, como Dan Brown, que uma argumentação correta e sustentada por provas válidas seria suficiente para dissipar erros e crenças. Mas não é o que ocorre. Abandonar uma crença, por mais que ela se revele errada, é dificílimo. Talvez os argumentos apresentados sejam sempre insuficientes. Mas o mais provável é que a gente seja fundamentalmente impermeável a argumentos racionais, sobretudo na hora de criticar nossas próprias crenças.
Esse fenômeno tem nome: viés de crença. Sobretudo desde os anos 1990, inúmeras pesquisas verificaram que nossa relação intuitiva e imediata com uma crença é, em geral, muito mais forte do que os argumentos que podem contestá-la.
A experiência clássica consiste em mostrar, aos indivíduos testados, silogismos em que os argumentos iniciais são inválidos, mas a conclusão é uma ideia na qual é fácil acreditar ou, então, silogismos em que argumentos obviamente válidos levam a conclusões nas quais os indivíduos não acreditam etc.
Em geral, descobre-se que os argumentos, mesmo válidos, contam menos do que as crenças. De onde será que nasceu nossa confiança milenária na razão? E o que é que parece nos tornar sempre crédulos?
Deixo as perguntas de lado (momentaneamente), para acrescentar que o viés de crença cresce enormemente com as redes sociais. Por quê?
Numa pesquisa de 2009, Jonathan Evans e outros mostraram que, na nossa preferência pelas crenças mesmo contra argumentos válidos, um dos fatores cruciais é o tempo. Quando falta o tempo de pesar e meditar os argumentos, os indivíduos preferem recorrer a suas crenças, que estão sempre disponíveis imediatamente.
Uma diferença de minutos, se não de segundos, pode ter consequências significativas. E estou pensando numa diferença de tempo específica: a diferença entre o tempo de postar um comentário imediato e o tempo de procurar caneta e papel, para escrever uma carta.
O tempo da carta talvez dê uma chance aos argumentos. No comentário postado, em regra, só se mobilizam as crenças. Conclusão engraçada e triste, nas redes, fala-se muito, mas ninguém tem a menor chance de convencer ninguém.
Da mesma forma, nas conversas, orais ou por WhatsApp, poderíamos reavaliar a função crucial do silêncio antes de responder.
Agora, começando a abordar as razões de nosso viés de crença, uma delas é a coesão de grupo. Amamos as crenças porque elas nos ligam aos que acreditam na mesma coisa que nós. Ou seja, amamos as crenças porque elas nos permitem pertencer a um partido, uma torcida, uma bancada (da bíblia ou da bala), uma roda de boteco. Render-se a argumentos válidos e abandonar nossas crenças pede quase sempre que paremos de frequentar os grupos que compartilham essas crenças.
Em suma, a regra de ouro para pensar é: tempo e solidão.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

sábado, 9 de dezembro de 2017

A escolha de Sofix

Conversei recentemente com minha obstetra sobre a hora do parto. Não quero que seja meu corpo a decidir que nenêx está pronto e sim que seja nenêx a decidir que é chegada a hora de liberar minhas costelas de tamanha dor. Ela me garantiu que essa é uma decisão muito mais de nenêx do que minha. Que alívio. A natureza, em sua sabedoria esplêndida, já era hipster millennial quando inventou o parto.
Assim que bebêx nascesse, adoraria perguntar se bebêx aceita a roupa amarela, que intitulei de unissex, mas isso é uma imposição minha, não tem como saber o que bebêx acha do amarelo (muito menos se vai gostar de saber que usei o termo unissex pra me referir a algo que vai em seu corpo). Bebêx ainda não falará por um bom tempo e isso me deixa louca. Contratei então uma taróloga famosa da Vila Madalena, pra perguntar a bebêx se tudo bem as cores amarelo, branca, verde água e cinza. Ela, que além das cartas também faz uso de ultrassom holístico, disse que bebêx estava chupando o dedão, ou seja: fazendo um joinha interno. Ou seja: tá liberado.
Difícil registrar criança sem saber se criança quer ter a existência documentada. Por isso deixarei em aberto seu nascimento até que criança me diga: eu. Ou melhor: estou. Enquanto criança não aceitar que vive neste planeta, não forçarei a barra.
Exame do pezinho: pularei. Quando puder caminhar assertivamente, o próprio pezinho decidirá se deseja ser examinado. Banho, vulgo invasão de um corpo por estranhos: só darei se recém-nascidx for ao encontro da água.
Acho barra pesada a água ir ao encontro de recém-nascidx (e acho surreal pensar no Mussum agora, em meio a um assunto tão sério), oprimindo uma pequena alma a imposições mundanas de higiene.
Infelizmente, mamy natureza também pode ser bem mandona. Então, porque sou branquela e meu marido é mais pro moreno, há grandes chances de nosso rebentx nascer ou branquelx ou morenx ou uma misturx de ambox. Não resta a rebentx nenhuma chance de vir japonêx, pardex ou parecido com a Björk.
Fico na dúvida sobre trazer filhx pra casa. Filhx já sabe se quer morar comigo? Aceita a limitação de um quarto, uma família composta por dois gêneros, uma cidade? Quer ser brasileiro? Quer ouvir o ensaio de carnaval da PUC? A gente sabe como é difícil decidir "morar com alguém" mesmo com mais de 30 anos, às vezes mais de 40... e queremos o quê? Que ser humanx de poucos dias já decida isso? Nossos pais nos trouxeram pra casa (pelo menos boa parte deles) e agora onde estamos? Na terapia, na farmácia, na meditação ou, pior ainda, na Casa do Saber. A gente sabe que não foi fácil.
Milhões de pediatras do mundo todo falam dos benefícios do leite materno. Mas vamos supor que pequenx humanx, tendo à sua direita um seio entumecido e à sua esquerda uma cachaça, sinta-se atraidx pela segunda opção. O que você, hipster millennial faria? Quem sabe mais sobre desejos: a medicina ou o inconsciente de pequenx humanx?
Arrotar: já reparou que não é uma decisão natural de bebêx e que precisamos bater nas costas de bebêx? A mãe não acha que é violência, mas bebêx ainda não tem o lugar da fala pra opinar. Pare pra pensar sobre isso.
Quando seu chefe, depois de uma reunião, ou o tio do pavê, depois da ceia de Natal, lhe dá o famoso tapinha nas costas... você se sente mal ou não? E você é um adulto!
Muito complicado dar à luz pequerruchx descendente que ainda não decidiu se quer descender de mim e pode muito bem preferir o escurinho.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Personal existência

Márcia começou a trabalhar aos 17 anos. Morava num apê pequeno em Santa Cecília. Cozinhava comida baiana como ninguém, apesar de não ser baiana. Cozinhava comida árabe como ninguém, apesar de não ser árabe. Era uma estudante autodidata de francês e ioga. Gostava de fazer tudo a pé e entendia de pontos de ônibus melhor do que ninguém.
Foi crescendo na empresa e ganhando aumentos. Casou com um homem que foi crescendo ainda mais em sua empresa e tendo ainda mais aumentos. Morou numa casa gostosa em Perdizes, depois numa gigantesca em uma vila nos Jardins e recentemente abraçou a ideia bastante estranha de um dúplex dentro do mesmo condomínio que um shopping. Ela espirrava na sala e já tava na fila do Ráscal.
Nessa trajetória de ascensão, foi a primeira a ter personal pilates, personal fisioterapeuta, personal corrida, personal massagem modeladora e personal "arrumador de armários". Era uma quantidade meio descontrolada, mas como Márcia trabalhava muito, estava perdoada. Depois ela contratou um personal cuidador de cachorro, delegando passeios e cocôs para uma pessoa que passava o dia todo na sua casa apenas para isso mesmo: passeios e cocôs.
Então foi ladeira abaixo: seus dois filhos eram completamente assessorados por "personais" enfermeiras, cuidadoras, cozinheiras e educadoras. A personal analista da família ia até a casa dela, todos os dias, e até viajava com a família quando o personal agente de viagens conseguia emplacar uma dica personalizada. Se não me engano, a cachorra tinha uma personal analista que ia junto. O personal motorista era personal segurança. A personal secretária só podia falar com a personal governanta que, por sua vez, não podia falar com Márcia, o que fazia a personal secretária não ter a menor ideia do que era pra fazer.
Márcia nomeou um personal assistente para fazer todo o seu trabalho e um personal assistente do assistente somente para que o primeiro nunca ligasse incomodando. Ela nunca mais saiu de casa.
Cansada de ter que dividir a atenção do concierge do prédio com outros moradores, pagou do próprio bolso um personal porteiro. Seu Juca ficava sentado o dia todo na recepção do prédio, mas não podia dar bom dia a ninguém que não fosse Marcinha.
Um dia Marcinha contratou uma personal gêmea. Uma mulher bem parecida com ela que, após algumas intervenções com um personal cirurgião, ficou idêntica. A personal Marcinha ganhava pra ficar cinco minutos em festas infantis, lançamentos de livros, batizados e funerais. Quando era casamento de rico, a Márcia real preferia ir: pegava direto da fonte as dicas mais quentes das novidades do mercado de "personais". Agora tinha uma pessoa, parece, que era especializada em dar banho, comida na boca e até limpar a bunda. E não precisava ter problemas motores ou mentais, bastava ser como Márcia: muito rica e sem tempo pra nada.
Certa feita a personal Marcinha acabou fazendo um boquetinho amigo pro marido de Márcia. Márcia tinha acabado de fazer um "peeling renovação de luz" nas mãos, com sua personal de peeling renovação de luz de mãos, e estava cansada. Daí foi ladeira abaixo: personal Marcinha acabou aderindo a outras sacanagens, profundidades e posições.
Trancada em seu quarto há anos, sem ver ninguém, Márcia procura agora no Google alguém que possa morrer por ela. Um personal defunto Marcinha. Ela tá louca pra dar uma falecida, mas imagina o trabalho que não deve dar?


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

Vamos comparar

A vida em Portugal está melhor do que no Brasil. Qualquer um percebe que há mais segurança e qualidade de vida. Portugal passou pela crise, quase sucumbiu ao seguir acriticamente os conselhos do neoliberalismo da União Europeia, corrigiu o rumo, resistiu, teimou e está em franca recuperação. Quantos brasileiros sonham em se mudar para Portugal? Quantos gostariam que o Brasil se transformasse num imenso Portugal? O curioso é que muitos querem as qualidades de Portugal sem ter de abandonar os defeitos do Brasil. Portugal é um país público. A mentalidade dominante enfatiza o senso comunitário. Paga-se muito imposto, tem-se ótimo retorno e não se quer abrir mão disso. A base da vida nos bons país europeus está na igualdade real.
O Brasil nunca será um excelente país para se viver enquanto mantiver os atuais níveis de desigualdade. Não vai funcionar. Podem combater a corrupção o quanto quiserem, criar prisões com milhões de vagas, aumentar indefinidamente o número de policiais, nada adiantará enquanto o fosso da desigualdade for oceânico. Portugal é um lugar sem grades. Quanto casa linda numa grande cidade como Porto sem grades nas janelas? O Brasil será um país gradeado enquanto bilionários pagarem proporcionalmente menos impostos do que assalariados. O problema do Brasil não é o policial que se aposentou com 40 anos de idade, como me disse um empresário, mas o fato de que o topo da sociedade vive no paraíso sem se dar conta de que se assenta sobre uma base desesperada.
A saúde, em Portugal, é quase totalmente pública para todo mundo. A direita resmunga. Mas sabe que está diante de uma conquista fundamental. Há coisas que só a educação produz. Por exemplo, o respeito ao pedestre na faixa de segurança. Em Portugal, como na maioria dos países europeus, chega a ser irritante. O motorista suspeita que a gente vai atravessar e já para. É uma humilhação para nós, brasileiros. Por que a nossa educação não funciona nesse sentido? Porque a educação só é realmente eficaz quando todos se sentem parte de alguma coisa. Num lugar onde poucos tem quase tudo e a maioria tem quase nada, sem perspectivas de mudança, o sentimento de respeito desaparece. No fundo, é cada um por si mesmo. Por que cooperar?
A desigualdade profunda desumaniza profundamente. Cada um vai se vendo como inimigo do outro. O cinismo predomina. A noção de solidariedade soa como uma piada de mau gosto. Valores só são introjetados quando cada um percebe correspondência nos outros. O Brasil não transmite qualquer ideia de compartilhamento. Não “tamu junto”. O exterior funciona como uma utopia pela qual não se quer pagar o preço necessário. O exemplo europeu socialdemocrata acaba por ser constrangedor. Qualidade de vida com igualdade parece uma relação indecente, coisa de comunista. Enquanto nos fechamos para almoçar, europeus podem comer em suas belas praças medievais. Aliás, comer ao livre é charmoso no Velho Mundo. Enquanto vivermos de desigualdade o Brasil não será um imenso Portugal. Será apenas um imenso inferno.